01 setembro, 2009

A providência de Deus

Por Ruy Cavalcante

Não é novidade a minha antipatia contra os movimentos neopentecostais, pois percebo vários pontos preocupantes em sua doutrina e liturgia. Há muito o que falar sobre esse assunto, porém neste momento gostaria de tratar, mesmo que em forma de esboço, a questão da providência divina dentro e fora desses movimentos.

Pessoalmente entendo como característica destacada desse movimento o misticismo e conseqüentemente a ênfase à sobrenaturalidade da revelação e da providência de Deus. Desconfio que seus líderes sequer conhecem a forma como os reformistas trataram esse assunto.

Com o retorno às escrituras (Sola Scriptura) conquistado pelo cristianismo histórico através dos reformadores, este e outros temas teológicos voltaram a fincar suas bases na Palavra de Deus, subjugando as experiências pessoais para fins de interpretação bíblica. A partir deste novo (e velho) contexto, a doutrina da providencia de Deus voltou a considerar que a ação divina na vida das pessoas é manifesta primariamente na forma “natural”, deixando como regime de exceção as manifestações sobrenaturais desta interação de Deus com o ser humano.

Em outras palavras, a providência de Deus acontece todos os dias, sem a necessidade de manifestações extraordinárias, ou como afirma o Pastor Augustus Nicodemus em seu artigo sobre Batalha Espiritual, “acontece através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus propósitos”. Isso vale até mesmo para a questão da conversão. A maioria das pessoas são alcançadas pelo evangelho de Cristo através de uma pregação, de um amigo, de uma leitura da Bíblia ou mesmo do testemunho de alguém. Eu mesmo fui alcançado por influência de amigos.

Infelizmente esta é mais uma das deturpações do evangelho criada, principalmente, pelo movimento neopentecostal. Neste contexto, a providência e toda atuação divina encontra-se subordinada às coisas sobrenaturais, ao inexplicável. Espiritual é o homem ou a mulher que recebe constantes revelações, que lança “palavras proféticas”, que é alcançado pelo evangelho de forma extraordinária, a exemplo da conversão de Paulo. Note que a conversão de Paulo é explicitamente uma exceção às demais descritas no livro de Atos dos apóstolos. O próprio Pedro foi usado por Deus de forma natural para a conversão de milhares, a partir de uma simples (mas viva) pregação.

Não tento com isso negar a atuação sobrenatural ou extraordinária de Deus, pois ela é real. Mas sim afirmo que as manifestações sobrenaturais não são nem de longe a principal maneira como Deus se relaciona com seu povo, pois afirmar isso é considerar os milhares de cristãos que não viveram experiências afins como inferiores espiritualmente aos demais que, por propósito divino, experimentaram coisas inexplicáveis.

Outro problema deste delírio gospel é o poder que ele possui de converter pessoas simples em comerciantes de milagres. As pessoas abandonam Cristo para buscar seus prodígios, deixam o amor em segundo plano para valorizar somente as coisas sobrenaturais, enfim, deixam o verdadeiro em simples evangelho de Jesus para viver o misticismo evangelical.

Temos que encontrar um sentido verdadeiro para nossas pregações, um sentido para nossos cultos, um sentido para nossos ministérios. Se a manifestação de Cristo em nós não estiver refletida primeiramente em nossa conduta diária, em nossa convivência com o próximo ou em nosso papel como agentes sociais creio eu que é vã nossa pregação e pura vaidade nossa vida cristã, por mais profecias que eu seja capaz de proferir ou curas que eu possa realizar.

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