05 junho, 2009

Voo 447, Salvo da morte. Onde guardaram o amor?


Por Ruy Cavalcante
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Essa peça ai afirma que recebeu um grande livramento de Deus. Trata-se de um pastor missionário que exerce suas funções “sacerdotais” em Paris, e atende pelo nome de Gláucio Oliveira. Segundo ele, estava com passagem reservada para o trágico vôo 447 da Air France, que desapareceu no oceano Atlântico, mas desistiu da viagem após receber uma mensagem de Deus para não embarcar, mensagem esta citada na imagem acima.

A mensagem foi-lhe repassada por outra moça evangélica, pouco conhecida do mesmo, que havia participado de um grupo de orações e recebido tal mensagem. Bom, até ai tudo dentro da “normalidade” de Deus. Deus realmente livra seus filhos constantemente de várias tragédias, especialmente quando possui ainda algum propósito para ser realizado através de suas vidas, que o diga o apostolo Paulo.

Agora, com o perdão da palavra, imaginar que Paulo, após escapar de apedrejamentos, prisões e várias perseguições, estaria com uma foto estampando essa cara de palhaço, alardeando o livramento de Deus, se auto promovendo como o homem de Deus que por Ele é protegido, carregando consigo o chicote de seu carrasco na mão é demais pra mim.

É demais olhar para esse sorriso e não imaginar o que as famílias das vítimas sentiram ou sentiriam ao vê-lo. É difícil não pensar que testemunho por promoção não transforma vidas, antes as afasta mais ainda de Deus. Quem gostaria de um deus que amou mais um palhaço desses do que as crianças daquele vôo? Deus ama ambos da mesma forma e, se foi Ele quem o livrou da morte, tenho convicção que não estava pensando nesta foto quando o fez. O propósito foi outro.

Quanta falta de respeito, de consideração, de amor e de solidariedade pela vida daqueles que não tiveram a mesma sorte e pela dor da perda que estão passando os familiares. Como a falta de amor pode nos tornar tão egoístas. Tirar um foto como esta, com a Bíblia numa mão, o bilhete na outra e este sorriso? Quanta vergonha estou sentindo. Que amor é este?

Fonte da notícia e imagem: Blog http://cristisantana.blogspot.com/
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03 junho, 2009

Sobre pássaros e gaiolas

Rubens Alves
Deus criou os pássaros.

As religiões criaram as gaiolas. As gaiolas criadas pelas religiões são feitas com palavras. Elas têm o nome de dogmas. Dogmas são gaiolas de palavras que pretendem prender o Pássaro. Guerra Junqueiro, poeta português, escreveu um longo poema que se tornou clássico sobre este assunto: “O Melro”. É bonito. Merece ser lido.

Escrevi, para minha filha pequena, uma estória sobre um Pássaro Encantado e uma Menina. Pássaro e Menina se amavam.Mas sempre chegava o momento quando o Pássaro dizia: “Preciso ir”. A menina chorava e dizia: “Não vá. Nós nos amamos tanto!” O Pássaro respondia: “Eu preciso ir para ter saudades. Porque o meu encanto nasce da saudade!” E partia. A Menina, então, teve uma idéia perversa: engaiolar o pássaro para que ele nunca mais partisse. E assim ela fez. Quando o Pássaro voltou, cheio de estórias para contar, cheio de penas de novas cores, enquanto ele dormiu, ela o engaiolou numa linda gaiola de prata. Ao acordar o Pássaro deu um grito de dor. “Menina, vou perder meu encanto. Vamos perder o amor!” E assim aconteceu. Foram-se as cores. Foram-se as estórias que ele contava. Foi-se o amor.

Escrevi esta estória porque eu ia partir para uma longa viagem e minha filha de quatro anos estava muito triste. Depois de publicada fiquei sabendo que meus colegas terapeutas a estavam usando para lidar com as relações amorosas, maridos engaiolando esposas, esposas engaiolando maridos, maridos querendo voar, esposas querendo voar... Aprovei. Aí um amigo me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!” Perguntei: “Que estória?” Ele me respondeu: A da Menina e do Pássaro encantado. Pois o Pássaro Encantado não é Deus que as religiões tentam engaiolar?”.

Um Deus engaiolado nas gaiolas de palavras chamadas dogmas é sempre menor que a gaiola. Esse Deus não é pássaro que voa, é pássaro empalhado.
Deus mora na saudade.
Deus mora na nostalgia.

Pelo menos foi aí que Santo Agostinho o encontrou; num lugar obscuro e doloroso da memória, onde só há silêncio, não há palavras.

Deus não nos deu asas. Deu-nos o pensamento. Voamos nas asas do pensamento. A ciência, a literatura, a música, as artes plásticas, o balé, a culinária, os brinquedos, as coisas que nos dão alegria, são todas criaturas do pensamento. Primeiro voamos na fantasia para, a seguir, criar. Miguel Ângelo primeiro pensou a Pietá para depois esculpir a Pietá... O pensamento são as asas que Deus nos deu.

(...)

O fato é que a história do Cristianismo está cheia de gaiolas. Quantos foram mortos pelo crime de pensar diferente! Desse crime tanto católicos quanto protestantes são culpados. Os mortos foram pássaros que se recusaram a ficar dentro das gaiolas. Os hereges.

ALVES, Rubem, Dogmatismo e Tolerância – Edições Loyola – SP – 2004 – Pp 9-10.