17 setembro, 2009

Meu congresso de adoração

Por Ruy Cavalcante

Meus amigos sempre estranham quando, ao me convidarem para algum congresso, seminário ou retiro de adoração, eu prontamente agradeço mas dispenso. Geralmente respondo a seco: Não, obrigado. Ou às vezes brinco: Não, sou evangélico.

A brincadeira sempre parece mais pesada do que eu gostaria, mas por outro lado é também sempre menos brincadeira do que eu desejaria que fosse. Ela se dá pelo seguinte motivo: sendo evangélico, eu preciso e devo seguir a Cristo de acordo com o Evangelho de Cristo, pois é esse o sentido do termo.

Mas o que encontramos nos congressos de adoração hoje em dia?

No último, ocorrido em minha cidade, houve muito toque de shofar (o que eles têm contra o nosso berrante?), supostamente para chamar a “presença de Deus” ou anunciar a sua chegada, espadas e diversas outras simbologias e expressões velhotestamentárias, que em nada refletem o “Evangelho de Cristo” como descrito em nossa Bíblia.

Este texto não é um tratado teológico, longe disso, é apenas o pensamento de alguém que está cansado de tanto misticismo gospel, judaísmo, legalismo e outros tantos “ismos” que interferem em nossa vida cristã deturpando o evangelho, afastando o povo da Palavra de Deus e aproximando-o de doutrinas humanas.

A verdadeira adoração não se prende a manuais, doutrinas e tampouco a rituais místicos. A adoração genuína surge dentro do ser humano, não vem de fora, e nasce como fruto do amor, primeiramente no amor de Deus por nós que, quando no alcança, culmina num amor recíproco de nós pelo Criador.

É justamente desse amor que a adoração se alimenta, não de ritos, expressões externas, músicas ou símbolos. Se meu coração não expressar a minha adoração por Cristo todos os dias, com minhas atitudes para com Deus, seu Reino e suas criaturas em vão louvam meus lábios quando entôo alguma canção, quando desmaio em algum congresso ou quando derramo lágrimas no meio da multidão.

Tudo isso tem sido largamente expresso em nossas canções. Prestem atenção em nossos cultos, em nossos congressos e em nossos “shows gospels”. Quantas músicas expressam em suas letras somente frases de louvor, engrandecimento e honra a Deus? E quantas expressam pedidos de vitória, fogo, chuva, restituição, bênçãos, milagres ou qualquer outra vantagem material e/ou espiritual para nós mesmos?

Qual o sentido de tudo isso? Se não conseguimos adorar a Deus sequer em nossas canções como o faremos em nossas vidas? Se não somos capazes de abrir mão de pedir tudo o que desejamos, durante o momento de louvor e adoração dos cultos, somente para honrar a Deus por alguns minutos como podemos achar que estamos fazendo alguma coisa agradável a Ele?

Temos muitos momentos para pedir tudo o que desejarmos para Deus e, de acordo com sua bondade e sua vontade, Ele responde a cada um. Mas espero que todos nós possamos, o quanto antes, entender o significado e a importância da adoração ao nosso Senhor, e que assim decidamos dedicar um pouco mais de tempo de nossos cultos somente a Ele, em homenagem a Cristo, uma vez que esse é o sentido de “cultuar” alguém, e deixemos nossos desejos materiais, espirituais e físicos para outro momento.

Fonte da imagem: http://www.geracaoeleitasp.com.br/
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03 setembro, 2009

Eu sou um trouxa e um pseudo-santo, graças a Deus

Assista ao vídeo:
Por Ruy Cavalcante
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Há poucos dias compartilhei com um grupo de amigos a minha opinião sobre oferta, disse até mesmo que no Novo Testamento só encontro exemplos de ofertas voluntárias (que me consertem com a Palavra caso eu esteja equivocado, não me venham com “Deus me revelou”). Fiz inclusive uma analogia quanto ao serviço voluntário: Quando me voluntario em alguma ONG humanitária, por exemplo, significa que estou disposto a trabalhar pela causa a que ela se dispõe, sem com isso esperar qualquer pagamento ou restituição financeira.

Em minha opinião o mesmo vale para a oferta verdadeira. Ela deve ser entregue “para Deus” sem que isso signifique que Ele deva me dar tudo em dobro, somente por reconhecer sua soberania, sua providência e também em face de meu amor incondicional por Ele. Fora disso entramos em negociação com Deus, e creio que Ele não necessita de meu dinheiro.

Entretanto, ontem me deparei com este trecho da pregação do Pr. Silas Malafaia (que já anda mais freqüente do que eu gostaria neste blog) e confesso que passei a “admirar” mais ainda o referido Pastor. É preciso muita coragem para criar tal deturpação na Palavra de Deus e ele mostrou que coragem tem de sobra.

Só para esclarecer, os textos que ele cita fazem referência ao sustento do trabalhador, promessa realmente bíblica (Sl 37:25, Lc 12:22-31, Mt 7:7-11, 1Tm 5:18, ...)

Sinceramente, não sei quais as intenções do Pastor quando chama de trouxa aqueles que ofertam sem esperar nada em troca. Oferta não é trabalho, e mesmo se fosse, seria no máximo um trabalho voluntário. Espero que seja apenas um equívoco, uma empolgação. Mas no caso de ser intencional eu afirmo a meus caros irmão que prefiro continuar sendo um trouxa e aparentando uma pseudo-santidade a negociar com Deus aquilo que Ele mesmo me deu, pois isso sim seria furtá-lo.

Antes trouxa que ladrão, pois os trouxas herdarão o Reino de Deus, os ladrões não...
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01 setembro, 2009

A providência de Deus

Por Ruy Cavalcante

Não é novidade a minha antipatia contra os movimentos neopentecostais, pois percebo vários pontos preocupantes em sua doutrina e liturgia. Há muito o que falar sobre esse assunto, porém neste momento gostaria de tratar, mesmo que em forma de esboço, a questão da providência divina dentro e fora desses movimentos.

Pessoalmente entendo como característica destacada desse movimento o misticismo e conseqüentemente a ênfase à sobrenaturalidade da revelação e da providência de Deus. Desconfio que seus líderes sequer conhecem a forma como os reformistas trataram esse assunto.

Com o retorno às escrituras (Sola Scriptura) conquistado pelo cristianismo histórico através dos reformadores, este e outros temas teológicos voltaram a fincar suas bases na Palavra de Deus, subjugando as experiências pessoais para fins de interpretação bíblica. A partir deste novo (e velho) contexto, a doutrina da providencia de Deus voltou a considerar que a ação divina na vida das pessoas é manifesta primariamente na forma “natural”, deixando como regime de exceção as manifestações sobrenaturais desta interação de Deus com o ser humano.

Em outras palavras, a providência de Deus acontece todos os dias, sem a necessidade de manifestações extraordinárias, ou como afirma o Pastor Augustus Nicodemus em seu artigo sobre Batalha Espiritual, “acontece através de pessoas e circunstâncias da vida para atingir seus propósitos”. Isso vale até mesmo para a questão da conversão. A maioria das pessoas são alcançadas pelo evangelho de Cristo através de uma pregação, de um amigo, de uma leitura da Bíblia ou mesmo do testemunho de alguém. Eu mesmo fui alcançado por influência de amigos.

Infelizmente esta é mais uma das deturpações do evangelho criada, principalmente, pelo movimento neopentecostal. Neste contexto, a providência e toda atuação divina encontra-se subordinada às coisas sobrenaturais, ao inexplicável. Espiritual é o homem ou a mulher que recebe constantes revelações, que lança “palavras proféticas”, que é alcançado pelo evangelho de forma extraordinária, a exemplo da conversão de Paulo. Note que a conversão de Paulo é explicitamente uma exceção às demais descritas no livro de Atos dos apóstolos. O próprio Pedro foi usado por Deus de forma natural para a conversão de milhares, a partir de uma simples (mas viva) pregação.

Não tento com isso negar a atuação sobrenatural ou extraordinária de Deus, pois ela é real. Mas sim afirmo que as manifestações sobrenaturais não são nem de longe a principal maneira como Deus se relaciona com seu povo, pois afirmar isso é considerar os milhares de cristãos que não viveram experiências afins como inferiores espiritualmente aos demais que, por propósito divino, experimentaram coisas inexplicáveis.

Outro problema deste delírio gospel é o poder que ele possui de converter pessoas simples em comerciantes de milagres. As pessoas abandonam Cristo para buscar seus prodígios, deixam o amor em segundo plano para valorizar somente as coisas sobrenaturais, enfim, deixam o verdadeiro em simples evangelho de Jesus para viver o misticismo evangelical.

Temos que encontrar um sentido verdadeiro para nossas pregações, um sentido para nossos cultos, um sentido para nossos ministérios. Se a manifestação de Cristo em nós não estiver refletida primeiramente em nossa conduta diária, em nossa convivência com o próximo ou em nosso papel como agentes sociais creio eu que é vã nossa pregação e pura vaidade nossa vida cristã, por mais profecias que eu seja capaz de proferir ou curas que eu possa realizar.

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