28 setembro, 2010

Impressões cristãs sobre a Eleição 2010

Por Ruy Cavalcante

Atendendo a sugestão de minha irmã e amiga Eliana Oliveira (@elianacico), vou aproveitar esta última semana da campanha eleitoral para deixar minhas considerações (e impressões) sobre as eleições 2010, na perspectiva de um cristão preocupado com a essência do Evangelho de Cristo, não abrindo mão de um dos cinco pontos fundamentais do pensamento reformado, o “sola scriptura” (na verdade não abro mão de nenhum dos “cinco solas”). Tratarei de três pontos que considerei importantes (e preocupantes).

De início, o que parece estar bem claro na relação do povo evangélico com a política é uma inversão de valores cristãos no sentido de prioridades do Reino. Explico:

No princípio da era cristã, o padrão era o indivíduo abandonar tudo para seguir e servir a Deus. Exemplos claro disso são as conversões de Pedro, André, Tiago, João (Mt 4:18-22) e Paulo, este último tendo abandonado a política (Fp 3:5) para entregar-se totalmente a servidão (a Cristo), com direito a açoites, prisões e perseguições (II Co 11:23-28).

Porém, nesta campanha eleitoral vimos um êxodo de pastores e líderes eclesiásticos abandonando os cuidados do aprisco de Cristo para pleitear cargos em disputas político partidários, realizando um caminho inverso ao dos primeiros discípulos. Em suma, aqueles discípulos da época de Cristo e dos tempos das perseguições religiosas extremas, tinham por maior patrimônio o servir a Deus e por isso muitos perderam até mesmo suas vidas, enquanto hoje o poder e a “prosperidade” que um cargo político é capaz de proporcionar aos eleitos, fizeram com que muitos abandonassem ou negligenciassem esta mesma obra.

A pergunta que fica a respeito disso é:

“Se eles não foram suficientemente fiéis ao compromisso que um dia firmaram com Deus, para cuidar de Sua Obra, cumprindo a missão para o qual foram chamados, o que garante que eles serão fiéis ao compromisso firmado com o povo?”

Estatísticas para responder esta pergunta não faltam, basta trazermos à memória a quantidade de políticos evangélicos envolvidos em casos de corrupção na última década.

Outro ponto nesta campanha foi o crescimento absurdo do número de acordos políticos entre igrejas e candidatos, nas mais diversas categorias. Vimos por exemplo uma quantidade incrível de campanhas realizadas dentro dos templos (o que se constitui crime eleitoral, conforme a Lei Nº 9.504/97, que estabelece normas para a eleição), baseados em acordos de apoio mútuo entre líderes e candidatos, onde aqueles chegaram até mesmo a constranger e amedrontar os membros de suas igrejas sob a pena (delirante) de estarem incorrendo em maldições.

Os acordos firmados vão desde a promessa de facilitação burocrática para projetos eclesiásticos, até o compromisso de participação efetiva de membros e familiares da liderança da igreja em cargos de confiança ou mesmo de suplência. Muitas vezes os candidatos sequer professam a fé cristã e apóiam projetos contrários aos princípios do Evangelho de Cristo, sendo estes acordos apenas baseados no desejo de alcançar poder terreno, desejo este que tem tomado conta de uma parcela imensa da liderança cristã brasileira e mundial.

Por conseguinte, num terceiro ponto, foi possível observar claramente também o aumento de evangélicos dispostos a trocar seus votos por favores e doações, prática esta considerada criminosa pela lei eleitoral vigente (Lei Nº 9.840/99 - Lei da Compra de Voto) e, obviamente, contrária aos princípios cristãos.

Tive a (infeliz) oportunidade de ver irmãos trocando votos por doações de combustível, de materiais de construção, por promessas de emprego ou mesmo por considerar que a eleição de determinado candidato será benéfica para si ou para sua própria família, contrariamente ao que aprendemos no Evangelho Genuíno de Cristo, que indica que nossa preocupação deve ser também com os outros e não apenas com nós mesmos (I Co 10:24).

Não é de admirar que estas coisas estejam acontecendo cada vez mais no meio do povo cristão, uma vez que a teologia mais difundida e aceita entre as mais diversas denominações evangélicas hoje em dia é a que afirma que “nascemos para vencer”, mas conhecida como teologia do determinismo, a confissão positiva e, por conseguinte, a teologia da prosperidade, conceitos estes que deixaram aflorar perigosamente uma das mais perniciosas tendências carnais de todo ser humano, que é a avareza e o desejo de se dar bem, independentemente dos meios para os quais cheguemos ao estado de conquista.

Confiando na frase popular que afirma que “para um bom entendedor, meia palavra basta”, quero encerrar este post com uma frase que tenho repetido várias vezes entre meus amigos, apesar de saber que ela jamais se tornará um jargão evangélico, por não se tratar de algo popular ou desejoso para aqueles que são, antes de cristãos, amantes de si mesmos. É mais ou menos assim:

Eu não nasci para vencer, eu nasci para servir... a Deus

Por este motivo, entre outras coisas, não abandono meu chamado e meu compromisso com Deus e com Sua Palavra por cargos políticos, não faço acordos políticos espúrios, tampouco desobedeço à legislação brasileira fazendo campanha política no templo religioso e não vendo meu voto, mesmo que isso me cause algum dano.

OBS.: A minha intenção inicial era falar um pouco mais de política, no sentido didático, porém eu não resisti...

E para vocês, qual impressão ficou na relação da igreja com a política nesta eleição?



11 setembro, 2010

Vale a pena expor os erros? Por Dr.Harry Ironside

Objeções tem surgido até mesmo entre alguns crentes bíblicos em relação a exposição do erro como sendo totalmente negativo e sem produzir real edificação. Ultimamente, o alarido e lamúrias tem sido contra todo e qualquer ensino negativo. Mas os irmãos que assumem esta atitude se esquecem que grande parte do Novo Testamento, tanto dos ensinos de nosso Salvador como dos escritos dos apóstolos foi direcionado a mostrar o verdadeiro caráter dos falsos ministros, mostrando sua origem satânica e, portanto, o perturbador resultado da propagação de ensinos errôneos, o qual Pedro, em sua segunda epístola, assim se refere de forma definitiva como sendo “heresias de perdição”.

Nosso Senhor profetizou que surgiriam muitos falsos profetas, e enganariam a muitos. Em nossos dias, muitos falsos profetas tem surgido; e como muitos tem sido enganados por eles! Paulo predisse isso: “Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si. Portanto, vigiai” (Atos 20:29-31).

Minha própria observação é que esses “lobos cruéis”, sozinhos e em alcatéia, não poupam nem mesmo os mais protegidos rebanhos. Pastores nesses “tempos trabalhosos” fariam bem em notar o alerta dos apóstolos: “Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue.” (Atos 20:28).

Isso é tão importante nesses dias como o foi, de fato, nos dias de Paulo, esta importante ação – de expor os muitos tipos de falsos ensinos que, em todos os lugares, abundam mais e mais.

Somos chamados a “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”, embora falando a verdade em amor. A fé significa todo o corpo da verdade revelada e batalhar por toda a verdade de Deus implica necessariamente em algum ensino negativo. O poder de escolha não nos é dado nessa questão.

Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo.” (Judas 1:3-4).

Paulo, de igual maneira, nos admoesta: “E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as.” (Efésios 5:11) .

Isto não implica tratar de forma áspera esses que estão do lado oposto, completamente enlaçados pelo erro. Se a objeção que expor o erro necessita uma ponderação desamável sobre outros que não enxergam as coisas como nós, nossa resposta é: sempre foi o dever de um leal servo de Cristo alertar contra qualquer ensino que o fizesse menos precioso ou restringisse Sua obra redentora e a plena suficiência de seu atual ofício de sumo sacerdote e advogado.

Todo sistema de ensino pode ser julgado pelo seu posicionamento em relação as verdades fundamentais da fé. “Que pensais vós do Cristo?” (Mateus 22:42) ainda é o verdadeiro teste de toda crença. O Cristo da Bíblia não é certamente o Cristo de qualquer falso “ismo." Cada uma das seitas deste mundo tem certamente sua caricatura horrorosa de nosso amável Deus.

Deixe-me lembrá-lo que fomos redimidos às custas de Seu precioso sangue para sermos “bons soldados”. Como a batalha contra as forças das trevas está se tornando cada vez mais acirrada, precisamos da força do Senhor.

Há uma constante tentação para a concessão. “Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério.” Sempre é correto ficar firme no que Deus já revelou em relação a pessoa e obra de Seu Filho. O “pai da mentira” lança meias-verdades e é especialista principalmente em falácias sutis em relação ao Senhor Jesus, nosso único e suficiente Salvador.

O erro é como o fermento o qual lemos: “Um pouco de fermento leveda toda a massa.” A verdade misturada com o erro é equivalente ao erro total, exceto que aparenta ser mais inocente, portanto, mais perigoso. Deus odeia tal mistura! Qualquer erro, ou qualquer mistura tipo verdade-com-erro deve ser definitivamente tratada com repúdio e ser exposta. Fechar os olhos para isso é ser infiel e enganoso para com Deus ao expor as almas por quem Cristo deu a Sua vida.

Expor o erro é um trabalho muito impopular. Mas de um ponto de vista verdadeiro é uma tarefa que vale a pena. De nosso Salvador, significa que Ele recebe de nós, pelo Seu sangue que nos comprou, a lealdade que é devida à Ele. Para nós mesmos, se consideramos mais “o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito;” (Hebreus 11:26) assegura recompensa futura, mil vezes dobrada. E para as almas "que se pescam com a rede maligna, e como os passarinhos que se prendem com o laço" (Eclesiastes 9:12) Deus pode ainda significar enquanto viverem neste mundo a possibilidade de ser luz e vida, abundante e eterna.


*Dr. Harry Ironside (1876-1951) foi um devoto fundamentalista, escritor e professor por muitos anos, serviu como pastor em Chicago, na Moody Memorial Church de 1930 a 1948.


Traduzido por Edimilson de Deus Teixeira; Fonte: http://ecclesiareformanda.blogspot.com/.



08 setembro, 2010

Que tal viver o Evangelho de Cristo?

Por Ruy Cavalcante

Finalmente de volta ao lar, após passar algumas semanas ausentes de casa, em outro Estado, posso enfim retomar o curso normal (e real) da vida, do Reino, do Blog, do trabalho e dos demais afazeres.

Durante esta curta viagem tive mais uma vez a (infeliz) oportunidade de constatar algo: A situação do Evangelho de Cristo é alarmante não somente em minha terrinha, mas em todo o Brasil.

Quando falo de situação do Evangelho, não quero na verdade enfatizar a situação e a “qualidade” do Evangelho de Cristo, pois este possui seu valor intacto e incalculável, mas faço referência a situação do “evangélico”, aquele que, em tese, deveria zelar pelos valores desse Evangelho.

Tanto lá (na Bahia), como aqui, parece que “viver o evangelho” se resume em pregar (lorotas muitas vezes), ensinar, falar línguas estranhas (muito estranhas) e espiritualizar tudo o que nos cerca, sem a necessidade de andar em testemunho de vida, ser exemplo de Cristo na terra, enfim, ser cristão. Ora, ministério cristão sem testemunho não passa de fachada, e fachadas são o que não faltam em nossas igrejas, fachadas lindas, mas apenas fachadas.

As pessoas estão tentando viver um cristianismo onde a simples obediência a sinalização do transito é um peso, onde sair perdendo numa transação comercial é atestado de idiotice, onde cumprir regras do condomínio é bobagem e onde não há necessidade de se cumprir acordos.

Passaram-me o troco errado, com valores acima do correto? Amém, “Deus me abençoou”. Se dar bem em cima do prejuízo alheio não afeta mais nossa consciência cristã.

Por falar em consciência cristã, em meio à campanha eleitoral, ela se encontra absolutamente escassa. Campanhas em locais de cultos, “profecias” para legitimar candidatos evangélicos e ameaças de maldição para quem não seguir a indicação de voto do “apóstolo” são apenas algumas das condutas “cristãs” encontradas em nossos arraiais.

O povo evangélico se corrompe por coisas esdrúxulas como uma pintura nova para o templo e ainda dizem: é para abençoar a igreja.

É... Muita coisa está errada, e não é um governo evangélico que mudará essa situação e sim o Governo de Cristo em nossos corações, pois somente isto pode nos transformar em novas criaturas, uma vez que não basta ter uma nova religião.

Viver com Cristo é mais do que participar de uma comunidade cristã. Viver com Cristo é andar em novidade de vida, uma vida nova, diferente da anterior onde a corrupção, a mentira, a falsidade e a falta de amor eram comuns. É amar a justiça e se regozijar em praticar o bem. É se sentir feliz quando nos tornamos capazes de dizer não para quem nos oferece benefícios em troca de votos, ou quando preferimos sofrer dano no lugar de mentir para se dar bem.

Esse é o Evangelho de Cristo, aquele que muitas vezes nos parece apenas um título de livro de aventura, algo como “em busca do Evangelho perdido”, mas que é tão real quanto a corrupção que Ele combate.