16 novembro, 2011

Considerações sobre “cair no poder”

Por Ruy Cavalcante

Sem levar em conta a reportagem esdrúxula da Record, extremamente hipócrita se ponderarmos a quem a emissora pertence, gostaria de fazer algumas breves considerações a respeito desta manifestação conhecida como “cair no poder (ou no espírito)”.

Para iniciar gostaria de deixar claro algo que já tratei em outros artigos: Experiências pessoais são o que a própria expressão diz, pessoais. Elas não podem se tornar doutrinas tampouco padrão para a Igreja, mesmo porque, elas possuem diversas raízes. Podem ser fruto de uma manifestação do Espírito Santo, do espírito do engano, ou mesmo do coração humano, a mais enganosa de todas as coisas. (Hb 2.4; 2Ts 2:9; Ap 19:20; Jr 17.9)

Dessa forma, experiências não explicam a bíblia e sim o contrário.

Entretanto, se experiências pessoais fossem capazes de criar bases doutrinárias para a Igreja do Senhor, ainda assim o que vemos hoje em dia, a respeito desse tipo de manifestação (o de cair no poder), estaria absolutamente desvirtuado daquilo que encontramos na Palavra de Deus, em diversas oportunidades. Citarei algumas.

(...) e louvavam ao Senhor, dizendo: Porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para sempre; então se encheu duma nuvem a casa, a saber, a casa do Senhor, de modo que os sacerdotes não podiam ter-se em pé, para ministrar, por causa da nuvem; porque a glória do Senhor encheu a casa de Deus”. (2Cr 5:13-14)

Como o aspecto do arco que aparece na nuvem no dia da chuva, assim era o aspecto do resplendor em redor. Este era o aspecto da semelhança da glória do Senhor; e, vendo isso, caí com o rosto em terra, e ouvi uma voz de quem falava”. (Ez 1:28. Ver também 3.23; 44:4)

Veio, pois, perto de onde eu estava; e vindo ele, fiquei amedrontado, e caí com o rosto em terra. Mas ele me disse: Entende, filho do homem, pois esta visão se refere ao tempo do fim”. (Dn 8:17)

Estando ele ainda a falar, eis que uma nuvem luminosa os cobriu; e dela saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. Os discípulos, ouvindo isso, caíram com o rosto em terra, e ficaram grandemente atemorizados”. (Mt 17:5-6)

Quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último”. (Ap 1:17)

A partir destas passagens do AT e NT (existem ainda outras semelhantes a estas), é possível concluir que sim, este tipo de experiência e bíblica.

Mas após uma simples análise, é facilmente perceptível o abismo de diferença entre estas experiências genuínas e aquelas que vemos acontecer em nossos cultos hoje em dia.

A primeira grande diferença é que em nenhuma das experiências bíblicas existe a figura de um sacerdote, pastor, apóstolo, profeta ou quem quer que seja, ministrando esta “unção” sobre a vida das pessoas. Note que em todas elas o próprio Deus, ou Jesus glorificado, é o causador de tais fenômenos, simplesmente pela presença de sua glória.

Observe também que todos aqueles que presenciam a manifestação da glória de Deus caem, ninguém fica de pé, não existe um super crente ou um sacerdote especial que continua de pé enquanto os outros são “ministrados”, alias, não existe ministração alguma.

A única coisa possível de se afirmar sobre este assunto é que este fenômeno é causado quando a glória de Deus enche um lugar e que, acontecendo, absolutamente todos caem, fruto da fraqueza humana diante de Deus. Em geral, todos ficam atemorizados.

Enfim, não há ser humano que suporte ficar de pé quando a glória de Deus é manifesta, o próprio Deus alertou a Moises que ele poderia morrer se visse sua Glória (Êx 33:18).

Importante salientar que ao falar da “glória de Deus encher um lugar” não estou falando da presença de Deus, pois se assim fosse, ninguém ficaria jamais de pé a partir do momento da conversão, pois nesse momento o Espírito Santo de Deus faz morada em nossas vidas e estamos permanentemente em Sua presença.

E que consenso tem o santuário de Deus com ídolos? Pois nós somos santuário de Deus vivo, como Deus disse: Neles habitarei, e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo”. (2 Co 6:16)

Há ainda um forte argumento contrário à doutrina do “cair no poder”.

Quando Paulo ensina aos coríntios sobre os dons espirituais, ele afirma que:

Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum”. (1 Co 12:4-7)

(Você pode ler considerações adicionais sobre este texto aqui)

Ora, apesar de ser uma pergunta repetitiva, ela ainda se encaixa neste assunto, então perguntarei: Que proveito para a Igreja (o corpo de Cristo) possui cair no poder, após ministrações diversas?

Proveito comum significa proveito de todos e não apenas de uma pessoa ou de uma parcela da congregação, logo, pessoalmente, não consigo visualizar a menor adição ao crescimento espiritual do corpo de Cristo após tais manifestações.

A verdade é que este tipo de manifestação é bastante recente, não se tendo notícias de que faziam parte, enquanto elemento, dos cultos da igreja primitiva, da igreja reformada, tampouco da doutrina dos apóstolos.

Muitos argumentos existem sobre este tema, porém acredito que para os sensatos, estes sejam suficientes para entenderem que, mesmo sendo possível existirem tais fenômenos vindos da parte de Deus, eles nunca fizeram parte do culto cristão, nunca foram ensinados por Cristo ou pelos apóstolos, logo são dispensáveis (para não dizer anátemas) ao cristianismo, salvo se surgirem apenas como experiências pessoais e não doutrinárias...

E lógico, se não surgirem após imposição de mãos humanas, pois isso sim é anátema.

Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos pregasse outro evangelho além do que já vos pregamos, seja anátema”. (Gl 1:8)



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