24 março, 2011

Comentário sobre manifestações do Espírito

Por Ruy Cavalcante

Dada a quantidade de pessoas que têm buscado a igreja com o intuito de encontrar ali manifestações sobrenaturais na forma de visões, “quedas no poder”, recebimento de “unções diversas”, danças proféticas e todo o tipo de suposta manifestação do Espírito Santo de Deus, sinto-me compelido a fazer um curto comentário bíblico referente a este tema.

Em primeiro lugar gostaria de esclarecer que acredito em manifestações sobrenaturais realizadas através do poder do Espírito Santo, a começar pelos dons espirituais, o profetizar, o curar, o falar em línguas e todos os outros descritos na Palavra de Deus, creio em visões, em revelações, em curas e tudo o mais que, segundo a Bíblia, possa ocorrer através deste mesmo Poder.

Entretanto, com a mesma convicção (quanto à existência destas manifestações) creio que elas sempre, absolutamente sempre, ocorrem quando existe um propósito e uma utilidade para o Reino de Deus. Vejamos o que Sua Palavra afirma:

Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil”. (I Coríntios 12:4-7)

É interessante o fato de Paulo restringir o que acabara de afirmar nos versículos de 4 a 6, (utilizando para isso a conjunção adversativa “mas” ("porém", dependendo da tradução)), à condição de que haja uma utilidade para tais manifestações. Paulo não deixa dúvidas. É importante ainda identificar que a palavra “útil” aqui, contextualmente infere uma idéia de “bem comum”, ou seja, não se trata apenas de possuir uma utilidade, mas de que ela seja útil para todos e não apenas para um indivíduo em especial. Outras traduções confirmam este fato:

A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum”. (ARIB)
A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum”. (NVI)
A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum”. (Católica)

Nesta perspectiva podemos inclusive perceber mais profundamente as motivações de Paulo ao também restringir as manifestações do dom de “línguas”, afirmando que:

O que fala em língua edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja”. (I Coríntios 14:4)

Com a preocupação do bem comum, Paulo restringe o uso do dom de línguas no culto apenas para as situações ondem exista quem possa interpretar, para que todos sejam edificados. A preocupação dele não estava baseada apenas numa questão de ordem, mas de utilidade para todos.

Ora, Deus não é animador de festas, tampouco derrama seu poder para encher nossos egos. Quando Ele o faz é para que a Igreja seja transformada e para que Seus propósitos sejam alcançados.

Portanto, manifestações supostamente espirituais, mas que não possuem utilidade alguma para o corpo de Cristo e para o bem comum devem ser consideradas, quando muito, apenas fruto de nossas emoções, e como tudo o que provém do coração humano, sem credibilidade cristã alguma.

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?” (Jeremias 17:9)