29 julho, 2011

Obediência cega (Cobertura Espiritual - Parte 2)

Por Ruy Cavalcante

Dando continuidade ao post anterior, contarei mais um breve testemunho.

Quando conheci minha esposa não éramos servos de Jesus. Durante o namoro ela foi ao “Encontro” gedozista e ao retornar passamos a freqüentar uma igreja em células. Minha esposa estava grávida, mas ainda não sabíamos. Ao descobrir, durante o terceiro mês de gestação, já havíamos nos entregado a Cristo.

Até então, tudo em minha vida era pecado, pois somente em Cristo somos purificados. Acontece que nossos líderes exigiram que eu separasse de minha esposa, alegando que nosso relacionamento não era da vontade de Deus, por haver sido iniciado sem a confirmação dEle. Ora, qual a pessoa que não serve a Deus pedirá autorização a Ele para se relacionar com alguém?

Meu relacionamento, assim como tudo em minha vida até aquela data, não tinha sido constituído nos moldes cristãos, mas a partir de então, cabia a nós dois cumprir com os propósitos de Deus, oficializando o casamento de acordo com as leis civis e celebrando a vida de nossa filha que chegaria em breve. Eles não aceitaram, disseram que se não foi autorizado por Deus não poderia acontecer e que se insistíssemos eles não mais nos “cobririam espiritualmente”.
Eu já havia freqüentando a igreja evangélica durante alguns anos e isso salvou minha família, pois desde o primeiro dia que pisei numa igreja comecei a ler o que diziam ser o “manual do crente”, ou seja, a bíblia. Nela eu já havia descoberto o caminho e o procedimento correto diante de Deus, mas até aquele momento ainda não havia permitido que aquilo fizesse parte de minha vida. Mas agora era diferente. Eu queria Jesus e queria minha família. Tinha certeza que meu arrependimento faria com que Deus me perdoasse, purificasse meu espírito e transformasse minha família.


"Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem obtivemos também nosso acesso pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e gloriemo-nos na esperança da glória de Deus".  (Rm 5:1-2)


Decidi ficar sem “cobertura espiritual” e permanecer com Cristo e com minha família. Hoje continuamos juntos, minha filha fará em setembro sete anos de idade, está no segundo ano escolar, sabe ler, escrever, tem uma família estruturada e conhece a bíblia mais do que muito crente “coberto”. Eu e minha casa servimos ao Senhor na igreja Batista Restauração, cujo pastor Breno Cavalcante é nosso amigo, líder irrepreensível, o qual eu respeito absolutamente em tudo, temos todos os problemas e conflitos relacionados à família, mas somos felizes e Cristo é conosco.

Mas se houvéssemos obedecido nossa cobertura espiritual, que legislava sobre nossa vida pessoal e havia determinado o fim de minha família, como estaríamos hoje?


"Mas, se alguém não cuida dos seus, e especialmente dos da sua família, tem negado a fé, e é pior que um incrédulo". (I Tm 5:8)

Jesus é o nosso Senhor (Rm 5:1; 14:8)e Ele escolheu líderes para nos ajudar a caminhar, não para que nós os ajudássemos em suas caminhadas pessoais ou para que confirmássemos sua liderança obedecendo-os cegamente...

...

Em tempo...

Tenho certeza que minha experiência não é necessariamente o padrão em igrejas evangélicas, especialmente neopentecostais, porém este é mais um exemplo de como esta doutrina extrabíblica da "cobertura espiritual" pode causar danos irreparáveis. Quantos Brasil afora não se depararam com situações semelhantes e obedeceram seus líderes, sob a suposta autoridade concedida a eles por Deus para legislar sobre a vida pessoal das ovelhas, e acabaram mal?

Este artigo não é um tratado em favor da rebeldia e sim em favor do senhorio exclusivo de Cristo sobre as nossas vidas.

E que o nosso absoluto Senhor Jesus nos abençoe.



25 julho, 2011

Cobertura Espiritual?

Por Ruy Cavalcante

Oito anos se passaram desde que minha esposa me afirmou, com a voz já alterada: “Ruy, nem mesmo se você me mostrar isso na bíblia eu acreditarei, pois eu acredito no que meu líder ensinou, eu aprendi assim e não vou mudar!”.

O susto ao ouvir isso foi grande e eu o considero um marco em minha vida. Foi neste dia que decidi nunca mais me omitir em relação ao ensino bíblico e comecei por minha casa. Desafiei minha esposa a estudar os fundamentos da fé durante um mês comigo, usando como única fonte literária a bíblia. Para a Glória de Deus, após um mês tudo mudou e ela disse outra frase de extrema importância para aqueles dias marcantes: “Ruy, como eu pude acreditar em tudo aquilo?”.

Mas a verdade é que eu tinha muita culpa no que estava acontecendo, pois mesmo observando o desenrolar das coisas, eu me omiti quando percebi que, ao deturpar o sentido de liderança cristã, estavam dominando a mente de minha esposa, ao ponto de ela dar preferência a autoridades humanas, em detrimento da autoridade de Deus, através de Sua Palavra. Isso aconteceu a partir do que conhecemos por “cobertura espiritual”.

Para ser bem claro, sou absolutamente consciente e convicto ao falar que a “cobertura espiritual” não é bíblica sendo, portanto, maldita (Gl 1:8).

Os adeptos de tal doutrina afirmam que (e não me digam que não, pois vivenciei isso) o nosso líder tem total autoridade sobre a nossa vida, ele é a nossa cobertura. Na verdade aqui é realizada uma grande deturpação do que a bíblia ensina sobre liderança.

Vou deixar que neste momento a bíblia fale por mim:
Todas as suas obras eles fazem a fim de serem vistos pelos homens; pois alargam os seus filactérios, e aumentam as franjas dos seus mantos; gostam do primeiro lugar nos banquetes, das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças, e de serem chamados pelos homens: Rabi. Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi; porque um só é o vosso Mestre, e todos vós sois irmãos. E a ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque um só é o vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem queirais ser chamados guias; porque um só é o vosso Guia, que é o Cristo. Mas o maior dentre vós há de ser vosso servo. Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado”. (Mt 23:5-12)

E ainda:

E ele, sentando-se, chamou os doze e lhes disse: se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos”. (Mc 9:35)

...sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo”. (Ef 5:21)

Ora, na bíblia a regra é “eu me sujeito a você e você a mim”, na cobertura espiritual a coisa muda para “eu me sujeito a você e você manda em mim”.

Jesus foi muito claro a respeito deste assunto. Ele não anula o principio da liderança, mas afirma categoricamente que o único que tem domínio e autoridade sobre a vida pessoal de alguém é Ele Próprio, todos os outros são irmãos, iguais e se alguém desejar ser diferente, ser maior, então que seja o servo de todos. Isso é incrível!

Jesus é o nosso Senhor e não há outro além dEle. Ele não divide Sua Glória e Seu Domínio com ninguém (Is 42:8), toda autoridade está sobre Ele (Mt 28:18). Nós não podemos deixar o fardo suave de Jesus (Mt 11:30) por um novo jugo de homens dominadores:

Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; mas eles mesmos nem com o dedo querem movê-los”. (Mt 23:2-4)

Devemos obedecer aos nossos líderes, eles estão numa posição espiritual que lhes atribui este direito e esta responsabilidade, mas não devemos nos colocar sob o jugo deles, pois aqueles que tentam dominar nossas vidas não representam a vontade de Deus, mas a de si mesmos.

O verdadeiro líder é aquele que ensina o discípulo a guardar o que Jesus ensinou (Mt 28:20), é alguém que serve a todos (Mc 9:35), que exorta e aconselha segundo os princípios do Evangelho (At 14:22), que busca não ser pesado e que dá valor a cada um dos discípulos (II Co 12:14).

O texto de Mateus 23:5-12 (transcrito anteriormente) traz nitidamente o que experimentei 8 anos atrás e mais ainda o que observo hoje em dia. Líderes que se aproveitam de uma doutrina antibíblica para difundir seus próprios ideais, legislando sobre a vida pessoal de seus seguidores e por estes defendidos, mais do que se dispõem a defender a fé genuína do Evangelho de Cristo.

Não pretendo esgotar este assunto num único artigo, pois há muito que se falar a respeito. Por hora peço apenas que meditem nestas passagens bíblicas e avaliem por si mesmos esta doutrina esdrúxula que recaiu sobre nossa igreja e nossas mentes, e tomem a decisão de viver um cristianismo bíblico. Eu não sou a fonte da verdade, mas a bíblia é.

Deus abençoe a todos com a sua sabedoria e com o seu discernimento. Paz...