31 dezembro, 2012

Adorar não é simplesmente cantar um canção


Por Ruy Cavalcante

Uma das coisas que eu desejei que ocorressem em 2012 era que diminuísse nossa mania de sacralizar músicas cristãs (ou gospels, se preferir). Infelizmente isso não aconteceu. Na verdade piorou.

Cada dia mais, damos às canções um status que deveria pertencer apenas à Palavra de Deus. Canonizamos músicas pelo simples fato de haverem sido compostas por crentes evangélicos, e blindamo-las de toda forma de critica, ainda que o próprio evangelho ensine o contrário do que sua letra afirma.

De certa forma, parece que a maioria de nós resumiu toda a adoração a Deus, na simples atitude de cantar uma música de mãos levantas, por isso não admitimos que ela tenha um papel secundário dentro do processo de adoração cristã. Em muitos casos ela se tornou o carro chefe, o personagem principal de nossos cultos, como se Deus fosse apenas um expectador de nossas apresentações musicais.

Não poderia deixar que o ano terminasse sem dizer algo a vocês, meus irmãos amados:

“A música é apenas uma das formas do ser humano EXPRESSAR sua adoração a Deus, não é sagrada, não é adoração em si mesma, não tem vida”.

Vida temos nós, dada por Deus, portanto, somos nós quem adoramos, e isso se faz, principalmente, sendo fiel a Deus. Deus pode suscitar pedras para adorá-lo, mas não é seu desejo ser adorado por coisas inanimadas, e sim por seres humanos.

É urgente a nossa necessidade de aprender mais sobre adoração, e eu queria deixar uma pequena contribuição.

Adoração é muito mais do que cantar. A adoração verdadeira, na maioria das vezes, sequer faz uso de palavras, pois não é algo externo, palpável, audível, mas interna, pessoal, espiritual, que flui do interior do ser humano. Vejamos um exemplo do que eu estou tentando dizer:

Tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome; adorai o Senhor vestidos de trajes santos”. (Sl 29:2)

Note que interessante a afirmação do salmista, a respeito da adoração. Ele diz: “adorai o Senhor vestidos de trajes santos” (JFA-RA, grafia brasileira). Outra tradução diz: “adorai o SENHOR na beleza da sua santidade” (JFA-RC).

Sua afirmação e imperatividade são tão claras, que dispensam maiores preocupações exegéticas. Ele não tutela a adoração a um entoar de voz, nem tampouco ao levantar de mãos e derramar de lágrimas, mas a uma vida de santidade. Precisamos adorar a Deus revestidos de santidade, essa é a verdadeira adoração.

Seja sincero, que sentido há numa adoração desprovida de obediência a Deus e fidelidade a sua Palavra? De que adianta cantar, chorar e levantar as mãos no culto, se fora dele eu não vivo uma vida digna de aceitação da parte de Deus. Chorar no culto e fazer chorar fora dele não tem o menor valor.

O próprio Jesus disse: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7:21, ver também o contexto). Isso também significa que de nada adianta cantar lindas canções de adoração, pois se eu não sou fiel a Ele, seremos apenas como o sino que ressoa, muito barulho, mas que sua função não perdura mais que alguns segundos. Seremos adoradores apenas de lábios, mas com o coração distante de Deus, e como diriam os antigos, nossa adoração não passa do teto.

Por falar em adorador, chega a ser cômico quando ouço alguém se apresentar como adorador do Senhor, pois sempre significa que ele é apenas um cantor gospel ou, quando muito, um ministro de louvor na igreja. Admira-me tanto equivoco.

Outro engano absurdo é quando o ministro diz à congregação: “Dê o seu melhor para Deus!”. Sempre entendem como: “Pule, grite, cante!”.

Se o nosso melhor para Deus for apenas um punhado de palmas e gritos, temo pelo nosso futuro na glória.

Bom, 2013 vem ai, logo mais a maioria de nós estará junto dos seus, comemorando mais uma passagem de ano. Vou ficando por aqui, embora tenha a devida noção de que há muito mais que se dizer a respeito deste assunto.

Ainda assim, meu desejo para você, no ano que chega, é que possa caminhar cada dia mais nos trilhos fundamentados pelos apóstolos (os verdadeiros), aproximadamente dois mil anos atrás, e que possamos ser uma verdadeira geração de adoradores, reconhecidos não pelas canções que entoamos, mas pela beleza da santidade em que caminhamos.

Deus abençoe a todos nós. Feliz 2013!



31 outubro, 2012

Consequências do Neopentecostalismo (A ênfase nas experiências) - Série Nova Reforma


Por Ruy Cavalcante

Finalizando esta série de artigos em alusão ao dia da Reforma Protestante, que se comemora hoje, dia 31 de outubro, a última consequência do movimento neopentecostal sobre a comunidade evangélica acreana (e brasileira) que trataremos neste trabalho, é a importância exagerada, quase canônica[1], que as igrejas adeptas do movimento atribuem às experiências pessoais, em especial aquelas supostamente sobrenaturais.

Esse empirismo[2] é a principal base de sustentação para todas as falsas doutrinas que acompanham o movimento neopentecostal. Por exemplo, quando se anuncia a prosperidade financeira como uma promessa de Deus à igreja, estas afirmações são perpetuadas pela experiência pessoal de pessoas que de fato prosperaram após suas conversões. Dessa forma ignorasse completamente as incontáveis famílias que não alcançaram tal “benção”, para enfatizar a veracidade de tais doutrinas através da vida de minorias.

Entretanto, a bíblia é clara quando afirma que “Deus não faz acepção de pessoas”. Ora, se de fato a prosperidade financeira fosse uma promessa de Deus à igreja, não haveriam exceções, não alcançariam esta promessa apenas uma parcela mínima da população evangélica, especialmente quando esse grupo, na prática, nem sempre possui um testemunho de fidelidade cristã.

Infelizmente a comunidade evangélica rio-branquense tem se deixado conduzir muitas vezes apenas por experiências pessoais, deixando a Palavra imutável de Deus em segundo plano, e não aceita as verdade ali contidas, exceto aquelas que são interessantes aos seus desejos pessoais.

Porém a ênfase nas experiências vai muito além da questão da prosperidade. Manifestações alheias ao evangelho são comuns, nos cultos neopentecostais, o que em Rio Branco não poderia ser diferente. Entretanto, a bíblia diz que:

Há diferentes formas de atuação, mas é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum” (I Co 12:6-7, NVI).

            Em outras traduções temos:

E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. ​A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso (JFA-RA).

E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil (JFA-RC).

Dessa forma, a Palavra de Deus não nega que existam manifestações espirituais, porém limita aquelas que são de fato realizadas pelo Espírito Santo ao campo da utilidade e do bem comum a todos, ou seja, não se trata de manifestações pessoais, mas operações do Espírito que beneficiam a todos da congregação, de forma que haja alguma utilidade prática para a vida cristã, o que nem sempre (ou quase nunca) tem acontecido nas manifestações carismáticas em igrejas neopentecostais da capital acreana.

É possível ver constantemente pessoas “caindo no poder”, falando em línguas desordenadamente, trazendo a todo instante novas revelações e profecias, afirmando terem sido arrebatadas no culto, ou ainda sendo tomadas por 'unções extravagantes', e diversas outras experiências que quase nunca trazem consigo proveito algum para a igreja, apenas criam uma atmosfera supostamente espiritual, sobrenatural, e tornam “especiais” as pessoas que alegam ter experimentado tais manifestações. Isso tudo acaba gerando uma corrida em busca deste “sobrenatural”, para que, aquelas que não experimentaram, não sejam consideradas carnais, o que geralmente acontece.

Assim, de experiência em experiência, a igreja vai sendo conduzida por caminhos nem sempre aprovados pelo Evangelho de Jesus Cristo, de forma que passam a ser consideradas tão ou mais importantes para a igreja do que a revelação escrita. Este erro é cometido pela maior parte das seitas existentes que, em determinado momento da história, seus pioneiros viveram experiências sobrenaturais, inexplicáveis e, deixando de lado os conselhos bíblicos, se entregaram àquelas manifestações e delas desenvolveram novos sistemas religiosos pseudo cristãos.

Assim finalizo esta série de artigos, convicto de que necessitamos de um retorno ao Evangelho puro e simples de Jesus, retomando as bases do protestantismo e, sem demora, afastando todo ensinamento contrário às sagradas escrituras, ainda que promovam uma explosão de milagres.

“Todo ensinamento contrário às Sagradas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres." (Martinho Lutero)




[1] Canônico é um adjetivo que caracteriza aquilo que está de acordo com os cânones, com as normas estabelecidas ou convencionadas e é por isso considerado aprovado, verdadeiro. A bíblia cristã é formada pelo Canon bíblico, ou seja, os livros considerados verdadeiramente inspirados por Deus.
[2] Empirismo é um movimento que acredita nas experiências como únicas (ou principais) formadoras das idéias, discordando, portanto, da noção de idéias inatas. No empirismo, a sabedoria é adquirida por percepções.



Consequências do Neopentecostalismo (O Triunfalismo) - Série Nova Reforma


Por Ruy Cavalcante

Dando continuidade aos artigos sobre os diversos prejuízos causados à Igreja, através do movimento neopentecostal, falarei agora sobre aquele no qual mais nos apegamos. Toda essa gama de informações doutrinárias, nem sempre verdadeiras (ou quase nunca), oriundas da confissão positiva e da teologia da prosperidade desenvolve um novo sistema filosófico dentro das igrejas neopentecostais, a saber, o triunfalismo. Quando envoltos a esta filosofia, a igreja tende a apresentar excessiva e absoluta confiança no sucesso terreno, e é exatamente assim que as igrejas neopentecostais em Rio Branco agem e tentam influenciar aquelas que ainda não se convenceram do valor atribuído ao movimento.

Os grupos locais, formados dentro das redes sociais são um bom termômetro para observarmos isso. Frases de efeito, bradando sobre vitórias, são repetidas como mantras, insistentemente, entre seus adeptos. As mais comuns[1] são do tipo “crente não conhece derrota!”, “crente nasceu para vencer!”, “você é cabeça e não cauda!” e outras afins que, não obstante os ensinamentos bíblicos, fazem sempre referência a conquistas terrenas.

Dessa forma, tem sido criada uma cosmovisão deturpada entre boa parte da comunidade evangélica rio-branquense (e brasileira) sobre o tema “vitória cristã”, de forma que até mesmo as estratégias de evangelismo se apegam a promessas vazias, proselitismos[2] e chavões de vitória, tentando convencer a população de que, uma vez convertido, todos os problemas do indivíduo serão resolvidos.

Maurício Zágari, jornalista, teólogo e escritor premiado, em seu recente livro “A verdadeira vitória do cristão” desconstrói esse pensamento triunfalista de maneira extremamente coesa, extraindo aquilo que a bíblia realmente afirma sobre o triunfo que Deus promete a cada um de seus filhos. Ele diz:

(...) nós nos tornamos vitoriosos como herdeiros da vitória de Deus sobre o mundo, o diabo e a morte. E, ao se tornar vitorioso sobre a morte, Jesus nos torna vitoriosos sobre a morte. Com isso, ao triunfarmos sobre a morte, pelo sangue de Cristo, recebemos como vitória a vida eterna.
Ao compreendermos essa realidade, podemos dizer sem medo a frase “a vitória é nossa, pelo sangue de Jesus”, desde que entendamos que o que estamos dizendo é: “O sangue de Jesus, derramado na cruz do Calvário, nos deu a vitória, que é a vida eterna” (ZÁGARI, 2012, p. 98).

Nessa mesma perspectiva, Jesus afirma: "Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo" (Jo 13:33, NVI). Jesus deixa claro que o nosso triunfo não é terreno, afirmando que enquanto estivermos neste mundo, as aflições serão inevitáveis, porém temos uma grande esperança, a grande mensagem do Evangelho, a de que um dia todo sofrimento cessará, e habitaremos livres e triunfantes com Cristo em seu Reino.

É verdade que Deus nos abençoa, ainda nesta vida, de várias maneiras, Ele nos dá vitória e triunfos em diversas áreas, porém essa não é a ênfase do Evangelho e nem uma garantia, pois estamos completamente sujeitos à vontade de Deus e Ele, de fato, abençoa a quem quer:

Como está escrito: "Amei Jacó, mas rejeitei Esaú". E então, que diremos? Acaso Deus é injusto? De maneira nenhuma! Pois ele diz a Moisés: "Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão". Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus. (Rm 9:13-16, NVI, grifo meu).

Dessa forma, fica claro perceber que todo realce dado a conquistas terrenas, em detrimento da verdadeira vitória do cristão, que é a salvação através do sacrifício de Jesus, é falsa e gera graves consequências para o povo que é envolvido por essa visão turva, ineficaz, e que não tem poder algum contra o pecado.



[1] Conforme pode-se observar no Facebook, a rede social mais popular entre os cristãos evangélicos de Rio Branco, e em sites e blogs evangélicos da capital como o “Acre Gospel”.
[2]  Proselitismo religioso é o intento, zelo, diligência, empenho ativista de converter uma ou várias pessoas a uma determinada religião através da argumentação.



30 outubro, 2012

Consequências do Neopentecostalismo (os Governos monárquicos) - Série Nova Reforma


Por Ruy Cavalcante

Foram citadas, no artigo anterior, as figuras papais presentes dentro do movimento neopentecostal, herança do catolicismo romano, nascido a partir da fusão entre a igreja cristã do século IV com a monarquia romana, na figura do Imperador Constantino, conforme relatos históricos encontrados à exaustão nas obras especializadas[1].

Em Rio Branco essa identidade monárquica  reivindicada pelos sacerdotes do movimento, tomam proporções extremas. Vejamos mais uma vez o que ensina o apóstolo Rene Terranova, a respeito da autoridade sacerdotal, uma vez que o mesmo exerce grande influência entre a liderança cristã acreana:

(...) o líder deve preservar a identidade do seu líder. Ele nunca deve questionar a identidade de seu mentor, a identidade de sua liderança. No dia em que João Batista fez isso, perdeu a cabeça. Ele que havia preparado o caminho de Jesus, que era primo de Jesus, mas que perdeu o legado da identidade de Jesus, quando entrou na rota da suspeita da identidade de seu líder. “Herodes questionou a identidade de Jesus e foi comido por bichos. João Batista questionou a identidade de seu líder Jesus e por isso perdeu a cabeça. Todo aquele que duvida da identidade do líder perde a legitimidade e o legado da liderança de Jesus” (...)[2]
           
Considerando novamente a falta de estudo e capacitação bíblica dentro de igrejas neopentecostais, fato bem característico em Rio Branco, encontramos aqui uma comunidade evangélica (dentro das referidas igrejas) absolutamente subjugada por seus líderes. Um povo temeroso, incapaz de avaliar o que seus pastores ensinam, conforme o exemplo bereano (Atos 17:10-11), por medo de incorrerem em pecado de rebeldia e assim, sofrerem diversas sanções eclesiásticas mediante essa atitude.

As palavras de Rene Terra Nova chegam a soar ridículas diante de uma análise, ainda que superficial, da real história da morte de João Batista. Diz o texto bíblico que:

Pois o próprio Herodes tinha dado ordens para que prendessem João, o amarrassem e o colocassem na prisão, por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu irmão, com a qual se casara. Porquanto João dizia a Herodes: "Não te é permitido viver com a mulher do teu irmão". Assim, Herodias o odiava e queria matá-lo. Mas não podia fazê-lo, porque Herodes temia a João e o protegia, sabendo que ele era um homem justo e santo; e quando o ouvia, ficava perplexo. Mesmo assim gostava de ouvi-lo. Finalmente chegou uma ocasião oportuna. No seu aniversário, Herodes ofereceu um banquete aos seus líderes mais importantes, aos comandantes militares e às principais personalidades da Galiléia. Quando a filha de Herodias entrou e dançou, agradou a Herodes e aos convidados. O rei disse à jovem: "Peça-me qualquer coisa que você quiser, e eu lhe darei". E prometeu-lhe sob juramento: "Seja o que for que me pedir, eu lhe darei, até a metade do meu reino". Ela saiu e disse à sua mãe: "Que pedirei? " "A cabeça de João Batista", respondeu ela. Imediatamente a jovem apressou-se em apresentar-se ao rei com o pedido: "Desejo que me dês agora mesmo a cabeça de João Batista num prato". O rei ficou muito aflito, mas por causa do seu juramento e dos convidados, não quis negar o pedido à jovem. (Marcos 6:17-26, NVI).

Ora, o motivo da decapitação de João Batista foi sua denúncia contra os pecados do rei e não há o menor indício bíblico que dê margens para outro tipo de interpretação. A única explicação lógica para tais deturpações das verdades bíblicas, dão conta da imaginação de líderes dispostos a tudo para governar o rebanho de Cristo através do medo, e uma ovelha que desconhece a voz do verdadeiro Pastor, acaba sempre enganada pelo sussurro dos lobos.

Com uma única afirmação, os líderes neopentecostais, além de deturpar absurdamente as sagradas escrituras, a fim de criar uma doutrina que atribua a eles o direito de não serem questionados, retiram de João Batista um dos maiores créditos de seu ministério, que seria o de denunciar o pecado, mesmo que isso lhe custasse a morte, como de fato custou.

Com tudo isso, além do medo, essa repressão tem causado a perda da identidade da comunidade cristã presente nas igrejas neopentecostais rio-branquenses, uma vez que ficam totalmente entregues aos desmandos de líderes, que determinam tudo em suas vidas, desde escolhas profissionais e relacionamentos, até mesmo decisões cotidianas como a roupa que poderão usar ou os locais onde poderão frequentar, numa clara apoderação das atribuições de Jesus na vida do Cristão, conforme Ele mesmo ensina:

Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos. ​A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus. ​Nem sereis chamados guias, porque um só é vosso Guia, o Cristo (Mateus 23:8-10, RA).

Posto isso, é mister considerar que Jesus é o único com autoridade sobre a vida integral do ser humano, o que nem sempre se permite ser experimentado hoje em dia, em especial nas comunidades neopentecostais, tornando o povo vulnerável a qualquer vento de doutrina que sopre contra a igreja.



[1] Um exemplo é a obra de Alcides Conejeiro Peres chamada “O catolicismo Romano através dos tempos”.
[2] TERRANOVA, Rene. Preservando a identidade do EU SOU. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/blog/?p=1500.



Consequências do Neopentecostalismo (o Sincretismo) - Série Nova Reforma


Por Ruy Cavalcante

A falta de uma teologia bem estabelecida sobre princípios coesos e em harmonia com a bíblia, associada ao pragmatismo predominante no movimento Neopentecostal deixam as igrejas, influenciadas por ele, desprotegidas quanto aos perigos do sincretismo religioso[1].

Hoje, em Rio Branco, a forma mais comum pelo qual esse sincretismo acontece é, sem dúvidas, entre as igrejas da visão G12 (ou M12), com sua visível mistura de doutrinas judaicas com o universo cristão descrito tão claramente no Novo Testamento, em relação à doutrina dos apóstolos, que nada mais é que uma releitura das práticas judaicas já envelhecidas (Hb 8:13). Consideremos o que o autor de Hebreus narra a respeito do Novo Pacto em Cristo:

Se ele estivesse na terra, nem seria sumo sacerdote, visto que já existem aqueles que apresentam as ofertas prescritas pela lei. Eles servem num santuário que é cópia e sombra daquele que está nos céus, já que Moisés foi avisado quando estava para construir o tabernáculo: "Tenha o cuidado de fazer tudo segundo o modelo que lhe foi mostrado no monte". Agora, porém, o ministério que Jesus recebeu é superior ao deles, assim como também a aliança da qual ele é mediador é superior à antiga, sendo baseada em promessas superiores. (Hebreus 8:4-6, NVI, grifo meu).

E ainda:

A Lei traz apenas uma sombra dos benefícios que hão de vir, e não a realidade dos mesmos. Por isso ela nunca consegue, mediante os mesmos sacrifícios repetidos ano após ano, aperfeiçoar os que se aproximam para adorar. Se pudesse fazê-lo, não deixariam de ser oferecidos? Pois os adoradores, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais se sentiriam culpados de seus pecados. Contudo, esses sacrifícios são uma recordação anual dos pecados, pois é impossível que o sangue de touros e bodes tire pecados (Hebreus 10:1-4, NVI, grifo meu).

Dessa forma, a lei mosaica, base primordial da religião judaica, trata-se de algo limitado, que simplesmente reflete uma aliança superior, a aliança com Cristo, que por sua vez é a base de sustentação de todo o cristianismo. A esta afirmação corroboram não apenas os aludidos textos, quanto toda a doutrina neotestamentária, resgatada pela teologia reformada e pelos pais da fé cristã.

Entretanto é comum vermos em Rio Branco o povo de Deus confeccionando arcas[2], às quais atribuem poderes místicos capazes de “encher de glória” quem as toca. Vemos também a comemoração de festas judaicas que, na tradição israelense, apenas apontavam para o Cristo, até que ele viesse, fato este já ocorrido dois mil anos atrás. Além disso, há um resgate de vestes sacerdotais judaicas e referencias a inúmeros símbolos da nação de Israel que, como toda a Lei, sempre eram tipos[3] de Cristo ou das verdadeiras promessas conquistadas na cruz. Outro exemplo clássico, observado em boa parte das igrejas neopentecostais de Rio Branco é o uso do shofar[4], que até o advento do neopentecostalismo era totalmente alheio ao cristianismo, sendo absolutamente ignorado no novo testamento cristão, salvo quando se refere ao toque das trombetas no tempo do fim (Mateus 24:31; I Coríntios 15:52; dentre outros). De certa forma, o povo honra a Deus com os lábios, mas nega-o com suas obras, pois ensinam e praticam doutrinas que invalidam a obra de Jesus (Mateus 15:8-9), por puro pragmatismo.

Infelizmente, o “privilégio” de assimilar doutrinas e rituais de outras religiões não está limitado às igrejas da visão, pois assim como no restante do Brasil, em Rio Branco somos bombardeados diuturnamente com rituais outrora restritos às seitas de origem africana, e isso dentro dos templos.

Como não lembrar-se das entrevistas com demônios e dos objetos consagrados, que adquirem poderes espirituais para realizar curas e exorcismos, realizados diariamente nos diversos templos da IURD e/ou Mundial, práticas típicas dos terreiros da Umbanda e Candomblé[5]? Ou ainda das figuras papais (líderes infalíveis e inquestionáveis) presentes na grande maioria das igrejas Neopentecostais, típicas do catolicismo romano?

A verdade é que esse movimento gerou na comunidade evangélica rio-branquense (e brasileira) uma cultura cristã que se adapta à diversidade da população acreana, formada pela miscigenação de diversas etnias indígenas e povos imigrantes que aqui chegaram a partir do século XIX[6], de maneira que a comunidade local sinta-se atraída a tornar-se evangélica, sem a necessidade de negar antigas práticas religiosas tradicionais às suas culturas de origem, práticas estas que passam a ser camufladas com uma espécie de “capa cristã”, mas que na verdade continuam sendo doutrinas espúrias, ainda que travestidas de santidade.


[1] Na história das religiões, o sincretismo é uma fusão de concepções religiosas diferentes, ou, a influência exercida por uma religião nas práticas de uma outra.
[2] A Arca da Aliança é descrita na Bíblia como o objeto em que as tábuas dos Dez mandamentos e outros objetos sagrados teriam sido guardadas, como também veículo de comunicação entre Deus e seu povo escolhido. 
[3] Tipologia é o estudo das figuras e símbolos da Bíblia, com os quais Deus procura mostrar, por meio de coisas terrestres as coisas espirituais. Dessa forma encontramos no Antigo Testamento Deus falando das glórias celestiais através de coisas terrestres, ou seja, TIPOS que revelam o ANTI-TIPO.
[4] Shofar é um antigo instrumento se sopro israelita, a qual os judeus atribuem poderes espirituais e proféticos.
[5] BIANCHETTI, Thiago Angelin Lemos.  Elementos de Rituais Afro-brasileiros sob a Ótica de Resignificação Iurdiana: uma Etnografia dos Exus na Umbanda e na Igreja Universal do Reino de Deus. Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas, Maceió-AL, 2008.
[6] PIMENTA, José. A “invenção” do Acre como exemplo de brasilidade. Artigo publicado na Revista Linguagens Amazônicas, n°2, pp. 27-44, 2003.



29 outubro, 2012

Consequências do Neopentecostalismo (o Pragmatismo) - Série Nova Reforma

Por Ruy Cavalcante

Considerando o que vimos no artigo anterior, e com todos os problemas que surgem pela falta de uma base doutrinária sólida, bíblica e ortodoxa, não é motivo de espanto que a concepção do que seria a ‘verdade’ fique comprometida dentro das igrejas neopentecostais. Tende-se então a considerar como verdade aquilo que funciona, ficando assim o conhecimento fundamentado na experiência pessoal, naquilo em que a ação do indivíduo leva a resultados positivos.

A isso a filosofia chama de pragmatismo. Dessa forma a igreja adepta do movimento neopentecostal, à medida em que abandona sistemas doutrinários ortodoxos, ajunta para si conceitos filosóficos e atribui a eles a responsabilidade de condução dos rebanhos. Os pragmáticos geralmente defendem que a importância de uma ideia deve ser medida pela sua utilidade ou eficácia para lidar com um dado problema e isso é bem característico para os adeptos da teologia da prosperidade. Ora Todos sabemos que há preocupações práticas que devemos considerar, mas o pragmatismo é uma filosofia que empurra para a periferia uma série de princípios fundamentais e elege, como único fator relevante, a questão:  “Isso funciona?”[1].

Em Rio Branco este pragmatismo exacerbado fica bastante evidente. É bem claro no dia a dia da cidade a forma como os sistemas religiosos evangélicos tem sido, no decorrer dos anos, orientados a resultados. Desde as pregações, em sua maioria constituindo-se apenas num emaranhado de frases de efeitos, motivacionais, anunciando promessas de vitórias, prosperidades, passando pelas canções entoadas nos cultos, congressos e seminários, todas elas direcionadas ao crescimento, ao que o povo deseja ouvir, àquilo que os manterá firmes em suas decisões de participar de um congregação.

Dessa forma vemos diariamente, poe exemplo, o anúncio de festas gospeis  com objetivo único de promover entretenimento ao jovem cristão, numa clara substituição dos prazeres mundanos por um prazer “santificado”, por assim dizer, bem diferente da ordem de auto negação imposta por Cristo aos seus seguidores (Mateus 16:24). Também é possível observar claramente nas rádios locais, que grande parte da programação serve apenas para massagear o ego dos ouvintes, uma vez que é exatamente isso que o povo gosta de ouvir, independentemente se o que se ouve é uma verdade bíblica ou não. O importante é que “isso funciona”, e a prova é o crescimento das igrejas e da audiência das rádios evangélicas locais.

Além disso são promovidos constantes seminários e congressos em Rio Branco, em sua grande maioria para tratar de assuntos periféricos ao Evangelho, como prosperidade financeira, curas espirituais, experiencias sobrenaturais, adorações proféticas e tudo o mais que for identificado como agradável à população, para que esta decida fazer parte da “classe dos evangélicos”, tornando-as pessoas com grande identificação com as igrejas, mas com pouca ou nenhuma identificação com Cristo.

Enfim, hoje em Rio Branco, vivesse um momento crítico, do ponto de vista da igreja protestante, uma vez que a maior parte da comunidade cristã evangélica é adepta do movimento neopentecostal, e tem conduzido suas estratégias de evangelismo de maneira que sejam atraentes não pelo Evangelho puro e simples, mas pela ilusão que promessas vazias e antibíblicas causam na população, pois é isso que tem funcionado, tanto que a igreja tem crescido numa proporção jamais vista, e a menor crítica a esse pragmatismo é considerada uma tentativa satânica de impedir o progresso da igreja. Não importa mais o que é certo, mas sim o que dá certo, e estas estratégias têm sido canonizadas pela população evangélica rio branquense.



[1] HORTON, Michael. Pragmatismo religioso. Publicado na Revista O Presbiteriano Conservador, na edição de Maio/Junho de 1997.



Consequências do Neopentecostalismo (Abandono da ortodoxia) - Série Nova Reforma

Por Ruy Cavalcante

A atratividade dos novos conceitos trazidos pelo movimento neopentecostal, cujo carro chefe é, sem dúvidas, a Teologia da Prosperidade, encontrou um Brasil de braços abertos. Nossa população pobre e humilde tem sido rapidamente influenciada pelas promessas de prosperidade, tranqüilidade e honra que este movimento prega e defende, afinal de contas, quem não gostaria de ter a solução imediata de seus problemas, a cura de suas doenças e a “engorda” de suas contas bancárias? Além disso, a ideia de que podemos conquistar o que desejarmos com o poder de nossas próprias palavras é um encanto difícil de ser ignorado.

Pensando nisso, falarei neste e nos próximos artigos, um pouco sobre as consequências deste movimento no Brasil, e em especial, em Rio Branco/AC.

Inicio então com a primeira delas: O abandono progressivo da ortodoxia.

Não é difícil entender o motivo pelo qual a maioria esmagadora das igrejas neopentecostais vem abandonando, progressivamente, os estudos bíblicos, encerrando as tradicionais escolas bíblicas dominicais, e desencorajando seus membros de cursarem faculdades e seminários teológicos. Dadas as inovações doutrinárias controversas, sem bases genuinamente bíblicas, os líderes do movimento sabem que um estudo aprofundado da bíblia geraria inúmeros conflitos internos, o que não seria saudável para o crescimento que se busca com tais novidades, do ponto de vista teológico.

Em lugar das escolas bíblicas, como uma forma de compensação, algumas destas igrejas introduzem grupos de estudos e escolas teológicas que nada mais são que reprodutoras dos conceitos neopentecostais que se desejam fortalecer no âmbito eclesiástico. Dessa forma surgem as chamadas “escolas de líderes[1]”, “escolas do sobrenatural”, “seminários proféticos”, dentre outras nomenclaturas que de nada lembram os tradicionais estudos transmitidos nas EBD’s. Nestes novos ambientes de estudo, aprende-se noções e conceitos de liderança, não mais conforme a tradição bíblica, de servir para ser grande, mas em acordo com os pensamentos de conquista e honra, que servem para criar, no senso comum dos crentes, a ideia de infabilidade e governança absoluta dos lideres que, dessa maneira, não podem jamais ser questionados, sob pena de incorrerem em pecado de rebeldia. Dessa forma a obediência é gerada pelo medo, não pelo amor.

Jesus nos dá a formula de liderança que deveríamos viver, quando diz:

Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (NVI, grifo nosso).
           
Contrariamente a isso, o apóstolo René Terra Nova afirma que “para você ter êxito na sua liderança, organize-se, sabendo que tem autoridade sobre as causas físicas e espirituais. Você tem poder para organizar as coisas. Foi Deus quem mandou você dominar a Terra[2]”. Ele afirma ainda que:

Quando Deus criou o homem, na sua imagem e semelhança, soprou o fôlego de vida, olhou nos olhos, e disse: GOVERNA! Esta é a ordem de Deus. Quero advertir que quem não governa é governado, e quem não lidera é liderado. Quem não domina, será dominado, por isso tome posse de seus territórios[3].

Não obstante os ensinos de Cristo, o movimento neopentecostal atribui aos líderes poderes extremos, a ponto de exigir que se paguem primícias de seus bens, para uso exclusivo deles, como maneira de obedecer ao princípio da honra, e assim adquirir o direito de ser abençoado por Deus, conforme dito pelo mesmo apóstolo, em mais um de seus estudos:

Muitos ganham por entregar em fidelidade o dízimo, outros prosperam em entregar a oferta, mas outros tantos que dizimam e ofertam perdem tudo por não terem a sabedoria de não guardar o princípio da primícia. É a primícia que traz a honra e libera o favor do eterno. Deus nunca travou uma guerra com ninguém sobre nada a não ser mover-se na terra por causa das primícias[4]. 

(...) não tem como dizermos que amamos a Deus se desprezamos os homens que Deus selecionou para cuidarem dos Seus filhos na Terra. Então, a primícia tem a força do respeito e da honra na direção do líder [5].

Todos estes ensinos criam o cenário ideal para que o movimento neopentecostal perpetue seu sistema doutrinário, uma vez que o medo impede que se questione lideranças, mesmo as corruptas, ou que submeta suas instruções ao crivo da palavra de Deus, pois passam a ser considerados autênticos representantes da verdade divina. Bem diferente do povo de Bereia,  o qual o apóstolo Paulo chama de nobres, por consultarem a bíblia a fim de confirmar se o que estava sendo ensinado por ele era de fato bíblico (Atos 17:11). É certo que um povo sem conhecimento é conduzido “para onde o vento soprar” e esta parece ser a estratégia escolhida pelos líderes neopentecostais, sejam de igrejas do G12, sejam de outras vertentes do movimento, como é o caso da IURD, onde sequer existem reuniões de estudo, ainda que deturpados, deixando seus membros sujeitos a tudo que se diz nos púlpitos, sem a menor condição de análise bíblica aprofundada.

Essa realidade é perfeitamente observada na capital acreana, a todo instante somos bombardeados com aberrações doutrinárias, chavões evangélicos que deturpam a palavra de Deus sendo proferidos em toda parte, crentes sem a menor condição de debater conceitos teológicos, que se utilizam de ameaças para manter suas doutrinas isentas de análise, festas gospels que de nada refletem a missão da igreja e outros desvios consequentes da falta de conhecimento e submissão à tradição bíblica.

Embora a gama teológica introduzida pelo neopentecostalismo não se resuma ao que foi apresentado até aqui, já é possível perceber como a ortodoxia, aos poucos e continuamente, vem sendo retirado das igrejas adeptas ao movimento, abandonando assim a tradição apostólica e a teologia reformada, para dar lugar ao novo, ao que funciona e que possibilita um crescimento massivo da igreja.



[1] A Escola de Líderes é uma escola de treinamento para os cristãos que irão passar por todo processo da visão celular.
[2] TERRANOVA, Rene. Líderes por herança e aliança. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=4.
[3] TERRANOVA, Rene. Nasceu o governo do Justo. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=14.
[4] TERRANOVA, Rene. O Princípio da Semeadura, o Poder da Semente. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=45.
[5] TERRANOVA, Rene. Pensamento do Eterno sobre as Primícias. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=44.



28 outubro, 2012

Um resumo sobre a Teologia da Prosperidade - Série Nova Reforma


Por Ruy Cavalcante

Inicio agora uma série de pequenos artigos apologéticos, em comemoração ao dia 31 de Outubro. Não, nesse dia não se comemora o dia das bruxas (pelo menos não para nós cristãos), mas o dia da Reforma Protestante, fato esse ignorado por boa parte das igrejas evangélicas, pois esta há muito deixou de ser protestante, pelo menos em sua maioria.

Os estudos não são uma novidade, este mesmo assunto pode ser encontrado exaustivamente em diversos outros blogs apologéticos, porém, como em minha terra não encontrei nenhum que trate do assunto de forma objetiva, resolvi escreve-los tendo como foco principal minha cidade, Rio Branco/AC, o que não significa que não tenha significado também para cristãos de todo o Brasil. Vamos lá então.

Para iniciar, nada melhor que um breve resumo histórico, não necessariamente doutrinário, sobre a onda do século no meio evangélico, a Teologia da Prosperidade.

Com o advento do neopentecostalismo, uma nova e extremamente atrativa interpretação do evangelho surgiu. Esta nova interpretação tem recebido vários nomes, porém nenhum esclarece tão bem sua perspectiva quanto “Teologia da Prosperidade”. Em suma, esta teologia desenvolve uma nova visão das Boas Novas do Evangelho, não mais que temos o perdão dos pecados e a reconciliação com Deus através de Jesus, mas que, através dele, podemos ter a solução de todos os nossos problemas além de viver com saúde e prosperidade. Sobre isso, Alan Pieratt[1] afirma em seu livro ‘O evangelho da Prosperidade’ que “esta mudança no conteúdo da esperança cristã, passando do porvir para o aqui e agora, tem consequências de tão grande alcance que o nome evangelho da prosperidade parece apropriado” (PIERATT, Alan B. O evangelho da prosperidade: análise e resposta. São Paulo: Edições Vida Nova, 1993, p. 9).

No Brasil essa nova perspectiva do evangelho encontrou grande aceitação, uma vez que sua atração em terras tupiniquins se deu justamente pela ausência de prosperidade enfrentada pela maioria do povo, especialmente entre os evangélicos.

É importante enfatizar que a teologia da prosperidade, como disse anteriormente, apresenta-se (ainda que de forma velada algumas vezes) como uma nova visão do Evangelho, o que por si só carrega a necessidade de ostensiva observação, uma vez que, em matéria de fé, poucas novidades são de fato melhorias para a cosmovisão cristã. Dessa maneira, a teologia da prosperidade têm recebido críticas constantes de teólogos e pastores renomados por todo o mundo, pois observam que, embora seus adeptos não neguem nenhuma das doutrinas básicas do cristianismo nem busquem novos fundamentos para fé que não seja Jesus Cristo, eles abandonam completamente, em suas interpretações, os padrões de interpretação bíblicos, históricos e reformados, trazendo à tona ‘verdades’ não permitidas pela própria bíblia, contraditórias ao seu contexto que muitas vezes só se sustentam através de experiências pessoais isoladas.

Assim, a base para a maioria das críticas à teologia da prosperidade se apoia no fato de esta não possuir sustentação e aprovação bíblicas para tal, condenando-a ao status de anátema[2].

Não se pode negar que o Evangelho dispõe de inúmeras promessas, donde a maior delas é a salvação em Cristo, e que Deus pode nos abençoar de várias maneiras, porém uma interpretação que defenda a ideia de que o crente em Jesus terá garantida prosperidade financeira, cura de todas as doenças e solução de todos os problemas de âmbito pessoal e profissional, se insurge contra as verdades históricas contidas na bíblia a respeito dos discípulos de Cristo, como no exemplo de Estevão, discípulo fiel cujo único crime foi anunciar Cristo e por isso fora apedrejado (Atos 5:57-60) ou naquilo que o Paulo descreve de si mesmo:

São eles servos de Cristo? — estou fora de mim para falar desta forma — eu ainda mais: trabalhei muito mais, fui encarcerado mais vezes, fui açoitado mais severamente e exposto à morte repetidas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus trinta e nove açoites. Três vezes fui golpeado com varas, uma vez apedrejado, três vezes sofri naufrágio, passei uma noite e um dia exposto à fúria do mar. Estive continuamente viajando de uma parte a outra, enfrentei perigos nos rios, perigos de assaltantes, perigos dos meus compatriotas, perigos dos gentios; perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, e perigos dos falsos irmãos. Trabalhei arduamente; muitas vezes fiquei sem dormir, passei fome e sede, e muitas vezes fiquei em jejum; suportei frio e nudez. Além disso, enfrento diariamente uma pressão interior, a saber, a minha preocupação com todas as igrejas.. (2 Coríntios 11:23-28, NVI)

Não fossem suficientes os testemunhos bíblicos, temos ainda os testemunhos históricos de milhares de cristãos mundo afora que, não obstante viverem dignamente, foram presos, torturados, queimados nas fogueiras da inquisição, perseguidos por nações inteiras, fato este que de acordo com o Ministério Missão Portas Abertas[3], continua acontecendo em diversos países do mundo.

Como podemos perceber, mesmo numa abordagem superficial, a teologia da prosperidade apresenta inúmeros pontos discutíveis e obscuros, não sustentados pelo Evangelho de Jesus Cristo, tampouco pelos relatos históricos da Igreja cristã. Tratarei mais sobre esse assunto e sobre as consequências da Teologia da Prosperidade e do movimento neopentecostal nos próximos artigos. Aguarde.




[1] Alan Pieratt, teólogo, Ph.D. em Ciências da Religião, professor na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, onde leciona as disciplinas de Hermenêutica e Teologia Contemporânea.
[2] Anátema era, na Grécia Antiga, uma oferenda posta no templo de uma deidade, constituída inicialmente por frutas ou animais e, posteriormente, por armas, estátuas, etc. No contexto bíblico toma para si o significado de maldito.
[3] Missão Portas Abertas, "Open Doors" é uma organização cristã interdenominacional dedicada a apoiar cristãos perseguidos em países onde o cristianismo é legalmente desencorajado ou reprimido. Portas Abertas abriu seu escritório local no Brasil em 1978.



26 outubro, 2012

O Crescimento da igreja e seu impacto social em Rio Branco/AC (Conclusão)


Por Ruy Cavalcante

Não se passaram muitos anos desde o tempo em que o jovem evangélico se deparava com preconceitos sociais, fruto de sua firme postura negativista diante da sociedade. Por não beber ou fumar, não namorar irreverentemente nem se comportar de forma considerada imoral, ele era em geral tratado pelos outros jovens como alguém alienado, bobo, careta e sem personalidade.

Na prática o preconceito continua, porém os motivos são bem diferentes, pois se existe algo que o jovem cristão da atual geração, em especial a neopentecostal, não é, é careta. Ser evangélico não é mais sinônimo de ser antiquado, inocente. O jovem evangélico agora promove festas raves[1], namora indiscriminadamente, bebe e não se diferencia mais dos outros pela roupa ou pelo vocabulário. Este “embaraço” não faz mais parte do cotidiano cristão.

Entretanto, infelizmente agora, ser evangélico tem, aos poucos, se tornado sinônimo de ser apaixonado por dinheiro, ser aproveitador, ser soberbo e ser amante excessivo de si mesmo, tudo exatamente inverso ao que nos anuncia o Evangelho de Jesus. Mas desta vez a culpa não é da perseguição religiosa ou da ignorância popular quanto aos verdadeiros valores do Reino de Deus, mas do mau testemunho da igreja, de sua inoperância social, e de sua cada vez mais constante participação em escândalos políticos e policiais.

É verdade que os tempos mudam e que, talvez, no aproximemos do tempo do fim, conforme anunciado nas escrituras, a qual alerta sobre a falta de amor que imperaria na vida de muitos, porém também não restam dúvidas de que o neopentecostalismo tem contribuído sobremaneira a esse quadro, sendo grande responsável pelo relativismo teológico e seu consequente esfriamento espiritual.

Ora, o Evangelho de Jesus Cristo é salvação para aquele que crê (Rm 1:16), não dinheiro no bolso, porém essa verdade tem sido revertida em muitos púlpitos mundo afora, assim como em Rio Branco, adquirindo uma nova roupagem: a de que Cristo morreu para que ainda nesta vida, alcançássemos a tão sonhada vida abundante, numa perspectiva totalmente material e terrena.

Em vista disso, a igreja tem se tornado cada vez mais parecida com o mundo, e sobre isso John Stott[2] afirma:

Urge que não somente vejamos, mas também sintamos, a grandeza dessa tragédia, pois, na medida em que uma igreja se conforme com o mundo, e as duas comunidades pareçam ser meramente duas versões da mesma coisa, essa igreja está contra­dizendo a sua verdadeira identidade. Nenhum comentário po­deria ser mais prejudicial para o cristão do que as palavras: "Mas você não édiferente das outras pessoas! (STOTT, John. Contracultura cristã. ABU Editora, 1981, p. 8)

Portanto urge que a igreja abandone o excesso de tolerância e que haja um posicionamento claro e incisivo contra essa abertura teológica que, embora acompanhe o discurso de aprimoramento e renovação da igreja e da pregação bíblica, a fim de dar respostas contemporâneas aos problemas da humanidade, está na verdade causando um enfraquecimento da Igreja, modificando seu caráter e substituindo seu alvo que sempre foi, é e continuará sendo, o Reino ainda invisível de Deus.

OBS.: Escrevi os últimos posts considerando que haja uma clara ideia do que prega o movimento neopentecostal, uma vez que aqui mesmo no blog há artigos à exaustão referentes a seus dogmas, doutrinas e práticas.


Clique aqui para ler a parte 4


[1] Rave é um tipo de festa que acontece em sítios (longe dos centros urbanos) ou galpões, com música eletrônica. É um evento de longa duração, normalmente acima de 12 horas, onde DJs e artistas plásticos, visuais e performáticos apresentam seus trabalhos, interagindo, dessa forma, com o público. 
[2] John Robert Walmsley Stott,  (1921–2011) foi um líder anglicano britânico, conhecido como uma das grandes lideranças mundiais evangélicas. Foi um dos principais autores do pacto de Lausana, em 1974. Em 2005, a revista Time classificou Stott entre as 100 pessoas mais influentes do mundo.