29 outubro, 2012

Consequências do Neopentecostalismo (Abandono da ortodoxia) - Série Nova Reforma

Por Ruy Cavalcante

A atratividade dos novos conceitos trazidos pelo movimento neopentecostal, cujo carro chefe é, sem dúvidas, a Teologia da Prosperidade, encontrou um Brasil de braços abertos. Nossa população pobre e humilde tem sido rapidamente influenciada pelas promessas de prosperidade, tranqüilidade e honra que este movimento prega e defende, afinal de contas, quem não gostaria de ter a solução imediata de seus problemas, a cura de suas doenças e a “engorda” de suas contas bancárias? Além disso, a ideia de que podemos conquistar o que desejarmos com o poder de nossas próprias palavras é um encanto difícil de ser ignorado.

Pensando nisso, falarei neste e nos próximos artigos, um pouco sobre as consequências deste movimento no Brasil, e em especial, em Rio Branco/AC.

Inicio então com a primeira delas: O abandono progressivo da ortodoxia.

Não é difícil entender o motivo pelo qual a maioria esmagadora das igrejas neopentecostais vem abandonando, progressivamente, os estudos bíblicos, encerrando as tradicionais escolas bíblicas dominicais, e desencorajando seus membros de cursarem faculdades e seminários teológicos. Dadas as inovações doutrinárias controversas, sem bases genuinamente bíblicas, os líderes do movimento sabem que um estudo aprofundado da bíblia geraria inúmeros conflitos internos, o que não seria saudável para o crescimento que se busca com tais novidades, do ponto de vista teológico.

Em lugar das escolas bíblicas, como uma forma de compensação, algumas destas igrejas introduzem grupos de estudos e escolas teológicas que nada mais são que reprodutoras dos conceitos neopentecostais que se desejam fortalecer no âmbito eclesiástico. Dessa forma surgem as chamadas “escolas de líderes[1]”, “escolas do sobrenatural”, “seminários proféticos”, dentre outras nomenclaturas que de nada lembram os tradicionais estudos transmitidos nas EBD’s. Nestes novos ambientes de estudo, aprende-se noções e conceitos de liderança, não mais conforme a tradição bíblica, de servir para ser grande, mas em acordo com os pensamentos de conquista e honra, que servem para criar, no senso comum dos crentes, a ideia de infabilidade e governança absoluta dos lideres que, dessa maneira, não podem jamais ser questionados, sob pena de incorrerem em pecado de rebeldia. Dessa forma a obediência é gerada pelo medo, não pelo amor.

Jesus nos dá a formula de liderança que deveríamos viver, quando diz:

Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (NVI, grifo nosso).
           
Contrariamente a isso, o apóstolo René Terra Nova afirma que “para você ter êxito na sua liderança, organize-se, sabendo que tem autoridade sobre as causas físicas e espirituais. Você tem poder para organizar as coisas. Foi Deus quem mandou você dominar a Terra[2]”. Ele afirma ainda que:

Quando Deus criou o homem, na sua imagem e semelhança, soprou o fôlego de vida, olhou nos olhos, e disse: GOVERNA! Esta é a ordem de Deus. Quero advertir que quem não governa é governado, e quem não lidera é liderado. Quem não domina, será dominado, por isso tome posse de seus territórios[3].

Não obstante os ensinos de Cristo, o movimento neopentecostal atribui aos líderes poderes extremos, a ponto de exigir que se paguem primícias de seus bens, para uso exclusivo deles, como maneira de obedecer ao princípio da honra, e assim adquirir o direito de ser abençoado por Deus, conforme dito pelo mesmo apóstolo, em mais um de seus estudos:

Muitos ganham por entregar em fidelidade o dízimo, outros prosperam em entregar a oferta, mas outros tantos que dizimam e ofertam perdem tudo por não terem a sabedoria de não guardar o princípio da primícia. É a primícia que traz a honra e libera o favor do eterno. Deus nunca travou uma guerra com ninguém sobre nada a não ser mover-se na terra por causa das primícias[4]. 

(...) não tem como dizermos que amamos a Deus se desprezamos os homens que Deus selecionou para cuidarem dos Seus filhos na Terra. Então, a primícia tem a força do respeito e da honra na direção do líder [5].

Todos estes ensinos criam o cenário ideal para que o movimento neopentecostal perpetue seu sistema doutrinário, uma vez que o medo impede que se questione lideranças, mesmo as corruptas, ou que submeta suas instruções ao crivo da palavra de Deus, pois passam a ser considerados autênticos representantes da verdade divina. Bem diferente do povo de Bereia,  o qual o apóstolo Paulo chama de nobres, por consultarem a bíblia a fim de confirmar se o que estava sendo ensinado por ele era de fato bíblico (Atos 17:11). É certo que um povo sem conhecimento é conduzido “para onde o vento soprar” e esta parece ser a estratégia escolhida pelos líderes neopentecostais, sejam de igrejas do G12, sejam de outras vertentes do movimento, como é o caso da IURD, onde sequer existem reuniões de estudo, ainda que deturpados, deixando seus membros sujeitos a tudo que se diz nos púlpitos, sem a menor condição de análise bíblica aprofundada.

Essa realidade é perfeitamente observada na capital acreana, a todo instante somos bombardeados com aberrações doutrinárias, chavões evangélicos que deturpam a palavra de Deus sendo proferidos em toda parte, crentes sem a menor condição de debater conceitos teológicos, que se utilizam de ameaças para manter suas doutrinas isentas de análise, festas gospels que de nada refletem a missão da igreja e outros desvios consequentes da falta de conhecimento e submissão à tradição bíblica.

Embora a gama teológica introduzida pelo neopentecostalismo não se resuma ao que foi apresentado até aqui, já é possível perceber como a ortodoxia, aos poucos e continuamente, vem sendo retirado das igrejas adeptas ao movimento, abandonando assim a tradição apostólica e a teologia reformada, para dar lugar ao novo, ao que funciona e que possibilita um crescimento massivo da igreja.



[1] A Escola de Líderes é uma escola de treinamento para os cristãos que irão passar por todo processo da visão celular.
[2] TERRANOVA, Rene. Líderes por herança e aliança. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=4.
[3] TERRANOVA, Rene. Nasceu o governo do Justo. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=14.
[4] TERRANOVA, Rene. O Princípio da Semeadura, o Poder da Semente. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=45.
[5] TERRANOVA, Rene. Pensamento do Eterno sobre as Primícias. Disponível em: http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=44.



2 comentários:

  1. Esses desvios doutrinários sempre me levam a uma cena épica do filme "O Advogado do Diabo", onde Robert De Niro, no papel do inimigo pronuncia: "Ah... Vaidade! Meu pecado predileto!"

    ResponderExcluir
  2. Excelente lembrança... ô geração pra gostar de uma ilusão...

    ResponderExcluir

Somente comentários ofensivos serão moderados. Discordar de mim não é pecado, então discorde à vontade.