25 abril, 2012

A letra que mata a ignorância

Por Ruy Cavalcante

Como prometido, abordarei brevemente outro tema comumente mal interpretado nas escrituras, embora eu acredite que não se trata realmente de um erro de interpretação, mas de dissimulação por uma parte da liderança cristã.

Quantos já não ouviram, após um debate apologético, após uma crítica a um falso ensino, ou mesmo quando um irmão decide cursar teologia, a “celebre” frase: Irmão, cuidado, pois a letra mata!

Obviamente baseiam-se no seguinte texto bíblico:

Porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Co 3:6b)


Analisemos então esta passagem bíblica para identificarmos o verdadeiro sentido desta afirmação do apóstolo Paulo. Vale ressaltar que (quase) sempre minhas análises são feitas de forma bem simples, lógicas e diretas, justamente numa tentativa de demonstrar que a interpretação bíblica não é algo tão complexo quanto muitos tentam impor, basta atenção, compromisso com a verdade e novo nascimento, se é que me entendes.

Pois bem, observando todo o contexto dos capítulos 2 e 3 da segunda carta aos coríntios, podemos facilmente chegar a uma conclusão clara e simples, senão vejamos:

Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo, e por meio de nós difunde em todo lugar o cheiro do seu conhecimento” (2 Co 2:14)

Porque nós não somos falsificadores da palavra de Deus, como tantos outros; mas é com sinceridade, é da parte de Deus e na presença do próprio Deus que, em Cristo, falamos” (2 Co 2:17)

Observe que no final do capitulo 2, Paulo cita, como um dos objetivo de suas viagens, o conhecimento da palavra, ou o anúncio desse conhecimento. Defende-se ainda, afirmando não falsificar a palavra de Deus, pelo contrário, fala a verdade, com sinceridade.

Isso nos dá pistas de que o conhecimento teológico, talvez, não seja o foco de sua afirmação do verso 6, no capitulo seguinte. Continuemos.

Sendo manifestos como carta de Cristo, ministrada por nós, e escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração” (2 Co 3:3)

Aqui vemos uma afirmação interessante e, pelo menos para mim, bem clara. Paulo está tratando de uma grande diferença entre a antiga e a nova aliança. A antiga, escrita com tinta ou talhada em pedras, sem vida, diferente da nova, da qual Paulo é ministro, escrita no coração do ser humano, referencia a nova habitação de Deus, ao novo templo da nova aliança, eu e você, conforme já havia sido anunciado por Deus a Jeremias.

Eis que os dias vêm, diz o Senhor, em que farei um pacto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá, não conforme o pacto que fiz com seus pais, (...) Mas este é o pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Jr 31:31-33)  / Ver também Hb 8:10.


Por fim, no versículo 6, onde encontramos a tão repetida (e batida) frase “a letra mata”, temos uma definição:

E é por Cristo que temos tal confiança em Deus; não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus, o qual também nos capacitou para sermos ministros dum novo pacto, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Co 3:4-6)

Claro como a neve não?

A letra a que Paulo se refere é exatamente a Lei, a antiga aliança feita com o povo de Israel, por meio de Moisés, aliança esta que, em conseqüência da condição do pecado humano, não tinha vida, mas gerava morte. Em contrapartida, a nova aliança com Deus, escrita nos corações não com tinta, mas com sangue, não com letras, mas com o Espírito Santo de Deus, essa gera vida.

Pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou, e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual nos aproximamos de Deus” (Hb 7:19)


Porque a lei, tendo a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, não pode nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem de ano em ano, aperfeiçoar os que se chegam a Deus” (Hb 10:1)


Porém, existe algo que o estudo teológico e a busca por conhecimento mata: A ignorância, o engano e a chance de ser conduzido para qualquer um dos lados que os falsificadores do evangelho  desejarem (2 Co 2.17).

A escolha é sua, continuar sob o jugo de homens, ou ser liberto pela palavra. Para lhe incentivar, deixo o exemplo de Cristo, na esperança de ser este um assunto onde haja unanimidade entre nós cristãos: Jesus é nosso grande exemplo, imitando-o estaremos bem.

Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler” (Lc 4:16)

Só para lembrar, o costume era ir à sinagoga para estudar a palavra de Deus.



20 abril, 2012

Libertinagem no Espírito

Por Ruy Cavalcante

Esta semana conversava com meu amigo caboverdiano Leonid Fortes e percebi que tanto lá, quanto aqui, a realidade é a mesma. Quem dera só no Brasil as pessoas interpretassem e ensinassem a bíblia como bem entendem, seria apenas um país fadado ao fracasso espiritual no meio de tantos outros que iriam bem.
O assunto em pauta era a tal liberdade que temos em Cristo, e como as pessoas têm administrado isso em nossas igrejas. Vejamos o texto chave:
Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade”. (2 Co 3:17)

Não é novidade que grande parte de nossos irmãos, especialmente os jovens, se aproveitam desta liberdade para dar vazão a seus impulsos e a sua energia. Dessa maneira nos acostumamos a ver pessoas correndo desenfreadamente dentro da igreja, durante cultos mais “fervorosos”, pessoas gritando, pulando, girando de ponta à cabeça, adorando extravagantemente, fazendo do culto um verdadeiro circo dos horrores.
Ora, fazer isso no culto (por exemplo), não é exercer liberdade, e sim libertinagem, é praticar uma liberdade sem bom senso, sem ordem, por impulso, tudo o que a bíblia disse para não fazer (1 Co 14:40).
Mas então, de que liberdade o texto bíblico fala?
No verso 14 do mesmo texto, temos a resposta quando Paulo diz: “mas o entendimento lhes ficou endurecido. Pois até o dia de hoje, à leitura do velho pacto, permanece o mesmo véu, não lhes sendo revelado que em Cristo é ele abolido”.
Ora, o capítulo 3 inteiro da segunda epístola de Paulo aos coríntios trata a respeito da antiga e da nova Aliança. A antiga sendo retratada como a “letra que mata” (assunto para outro post), e a nova refletida na “liberdade do Espírito”.
Assim, a tal liberdade, tão importante para a vida de todo o Cristão, refere-se à liberdade do jugo da Lei mosaica e da escravidão do pecado, justamente o que Cristo conquistou na cruz por cada um de nós. Antes éramos escravos, agora somos livres e com livre acesso à presença de Deus.
Esta é a liberdade do cristão, não se trata de alvedrio, nem de pular, nem de gritar ou de agir livremente sem controle. Vejamos outro texto:
Para a liberdade Cristo nos libertou; permanecei, pois, firmes e não vos dobreis novamente a um jugo da escravidão”. (Gl 5:1)

Novamente o assunto é jugo, escravidão. No verso 2  do mesmo texto Paulo fala sobre a circuncisão, uma vez que o povo continuava se submetendo às ordenanças da lei (jugo), circuncidando-se, quando na verdade fomos chamados à liberdade, ao jugo leve de Jesus (Mt 11:30).
Impossível entender outra coisa.
Fala-se muito nos exemplos de Davi quando tentamos dar credibilidade a essa libertinagem que toma conta de muitos cultos. Usa-se exemplos de como ele pulou, gritou, e fez coisas semelhantes a essa.
Mas se formos atentos e cuidadosos, perceberemos que em nenhuma das oportunidades que Davi agiu dessa forma, ele estava num culto, numa ministração no Tabernáculo, antes ele estava em comemorações, festejando vitórias em guerras, no meio da rua, ou junto do povo. Nunca ministrando a Deus diante do povo.
Meus irmãos, pular, gritar e rodopiar não é necessariamente pecado, mas existem lugares corretos para se fazer isso, e esse lugar não é o culto a Deus. Lembre que o culto é a Deus, não a nós mesmos. Vamos ao culto não para receber, mas para entregar, entregar nossa adoração a Deus.
Certa vez dois rapazes resolveram acrescentar algo que acharam interessante em suas ministrações de adoração, algo que não foi ensinado, que Deus não ordenou. O resultado disso vocês podem verificar no capítulo 10 de Levíticos.
Se liga irmão, vamos viver um cristianismo bíblico, não torne aquilo que você gosta numa verdade bíblica!
E que Deus nos abençoe sempre, perdoando nossa dificuldade em entendê-lo.
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Em tempo: Não vejo problema algum em você dançar, bater palmas e até pular durante o culto, desde que com isso você esteja festejando a Deus. O problema são nossos exageros e nossa falta de bom senso, pois tornamos essas coisas um elemento do culto, transformando-o apenas num show, sem ordem alguma, e sem a mínima decência. Um culto sem isso, continua sendo um culto, por outro lado, um culto com esses exageros se torna um circo.
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16 abril, 2012

Não, o melhor de Deus não está por vir!

Por Ruy Cavalcante

Apesar desse assunto já ser um pouco batido, resolvi organizar meus pensamentos num pequeno post, pois ele é recorrente nas redes sociais, em especial no twitter e facebook.

Hoje li o último artigo do irmão Maurício Zagari, em seu blog Apenas, que fala sobre a aparente “anencefalia” que reina no meio cristão evangélico dos nossos dias.

Todas as vezes que leio a frase “O melhor de Deus ainda está por vir” é exatamente esta a sensação que tenho, a de que abandonamos de vez nossa capacidade de raciocínio, para falar coisas sem a mínima meditação.

Por isso vou ajudar nessa reflexão de uma forma bem simplista.

Após o pecado do ser humano, Deus anuncia pela primeira vez o seu melhor quando diz:
Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. (Gn 3:15)

Pulando alguns exemplos, Moisés, enquanto enviado para resgatar o povo hebreu do Egito, figurava também o melhor de Deus.

Por falar em Moisés, praticamente toda a Lei apontava para o melhor de Deus, que naquele momento ainda não tinha vindo, desde o tabernáculo, até o sacrifício, passando pelo sumo sacerdote e os utensílios do templo.

Da mesma maneira Davi, o homem segundo o coração de Deus, também figurava o melhor de Deus que estava por vir em sua época. O que também acontecia com o profeta Samuel e todos os outros verdadeiros profetas que anunciavam ao povo as diretrizes de Deus, criando um elo entre ambos.

Adiantando-se na história, em momento oportuno da existência humana, uma criança, nascida de uma virgem, veio ao mundo, não para ser exemplo, mas para inaugurar uma nova realidade.

Aos 33 anos de idade, aquela criança se entregou a morte, e morte de cruz. Após ser crucificado, estando ainda agonizando, proferiu as seguintes palavras:

“Está consumado!”

Dessa maneira Ele estabelece:

“Eu sou o melhor de Deus! Nada mais resta a ser feito pela salvação da humanidade, eu fiz tudo o que era preciso e fiz isso porque amo vocês!”

Portanto amados, não fiquem esperando algo que seu coração egoísta tem desejado. O melhor de Deus não é um carro, não é uma casa, não é um esposo ou uma esposa, não é a cura de uma doença, nem mesmo um filho.

O melhor de Deus é Jesus, e Ele já veio!

Resta apenas uma coisa a ser feita por você (ou por nós). Inaugurar seu cérebro e, enfim, começar a servir, amar e perdoar...



11 abril, 2012

Seja você mesmo, e morra!

Por Ruy Cavalcante

É incrível a quantidade de vezes que ouço, ou leio, especialmente nas redes sociais, diversos evangélicos com discursos do tipo: “melhor errar sendo eu mesmo, que acertar sendo alguém que não sou”, "jamais tentarei ser aquilo que não sou, prefiro ser eu mesmo", ou coisas semelhantes a estas.

Eu fico pensando:

Será que esta pessoa, irmã ou irmão, entende o que está dizendo? Será que apenas achou essa frase bonitinha e decidiu reproduzir? Ou será que de fato, além de jamais ter lido a bíblia, até agora não entende do que se trata o cristianismo?

Vou te ajudar irmã(o).

Um dos princípios básicos do cristianismo é que não sejamos nós mesmos, mas que sejamos aquilo que Jesus deseja. Se formos nós mesmos seremos sempre mentirosos, corruptos, imorais, prostitutos, porque é exatamente isso que somos.


"Pereceu da terra o homem piedoso; e entre os homens não há um que seja reto; todos armam ciladas para sangue; caça cada um a seu irmão com uma rede". (Mq 7:2)

Basta olhar para você. Quando resolve ser "você mesmo", não são estas coisas que pratica?

A verdade é que todos nós devemos encarar seriamente as cosequências de ser cristão, pois elas são grandes e indispensáveis e uma delas é que não devemos mais ser “nós mesmos”.


"Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, NEGUE-SE A SI MESMO, tome a sua cruz, e siga-me". (Mt 16:24)

Negar quem somos não é uma atitude dos fracos e sim dos fortes. Porém, parece haver um consenso de que isso é sinal de falta de personalidade. Talvez fosse se você abandonasse suas convicções para seguir as convicções de outra pessoa, de um líder, amigo ou namorado(a), mas quando o assunto é cristianismo, negar suas convicções e desejos pessoais para caminhar na convicções e nos desejos de Jesus é exatamente o caminho da porta estreita.

Quer mesmo ser um cristão radical? Radicalize nisso: em negar a si mesmo para trilhar os caminhos de Cristo. Esta é uma boa decisão a se tomar, pois o fim de quem deseja trilhar seu próprio caminho tem sempre como última parada, a morte.

Não pense você que cristianismo se resume a lágrimas nos olhos e biquinho no culto. Não irmão! Cristianismo se faz com santidade, amor, paz, justiça e a negação do eu!‎


"Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós..." (Rm 8:8-9)

Pense nisso...


Foto: Getty Images



05 abril, 2012

Não somos nobres

Esta postagem não é um artigo, mas um desabafo.

Estou cada dia mais triste com a situação em que se encontra a igreja cristã, especialmente no Brasil. vivemos um momento onde a exortação passou a ser considerada obra da carne, onde a simples consulta ao texto bíblico, para fins de confirmação de uma pregação ou de algum ensino, é considerada uma afronta contra o Reino de Deus.

Não se pode questionar quem está sobre o púlpito, pois o simples fato de estar lá significa que se trata de um "homem ou de uma mulher de Deus", e assim como políticos brasileiros, gozam de imunidade. Me espanta como não percebem que agir dessa forma (conferindo na bíblia se é verdadeiro o que foi dito) não é ser carnal, mas nobre, assim como foram chamados os irmãos que consultaram a bíblia para confirmar se as palavras de Paulo e Silas (isso mesmo, o apóstolo Paulo!) eram de fato verdadeiras (At 17:11).

Com certeza o discurso mais usado (e mais hipócrita) do povo que não aceita ter suas falsas doutrinas (ou de seus "guias") contestadas se relaciona aos conflitos que a verdade gera.

Sempre afirmam algo do tipo: Você não pode falar isso, pois se está gerando conflitos não é de Deus, você precisa fazer como Jesus, pois Ele sempre falava com amor, carinho e todos gostavam de ouvi-lo, pois jamais criticou ninguém, nem confrontou a ponto de gerar conflitos, antes suas pregações só geravam amor...

Sinceramente, não sei que bíblia esse povo anda lendo, mas com certeza não é a mesma que disse isso:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia”. (Mt 23:27)
Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno?” (Mt 23:33)
Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves de escândalo; porque não estás pensando nas coisas que são de Deus, mas sim nas que são dos homens”. (Mt 16:23)

Um dos “amores” que sua pregação gerou foi esse:

Eles, porém, bradavam, dizendo: Crucifica-o! crucifica-o!” (Lc 23:21)
Depois de o terem assim escarnecido, despiram-lhe a púrpura, e lhe puseram as vestes. Então o levaram para fora, a fim de o crucificarem". (Mc 15:20)

E Jesus certa vez chegou a dizer:

Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra e assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa”. (Mt 10:34-36)


E, para completar, ainda fez isso:

Então Jesus entrou no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas e disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores”. (Mt 21:12)



Discurso levinho o de Jesus né? Imagina se eu fizesse metade disso, do que não me chamariam. Por muito menos cansei de ouvir irmãos me chamarem de filho do diabo, desgraçado, enviado de satanás, cobra, víbora, fora outros adjetivos impublicáveis...

Ruy Cavalcante