23 setembro, 2012

Cuidado, você pode estar agradando a pessoa errada

Por Ruy Cavalcante

Ultimamente andei observando alguns de nossos ministérios eclesiásticos. Infelizmente fiz algumas constatações pessoais não tão positivas, dentre elas percebi claramente como o pragmatismo tem dominado boa parte de nossas ações. 

Claro, isso não é nenhuma novidade, pois há tempos começamos a desconsiderar a verdade para dar lugar ao que é eficaz, mesmo que isso não esteja lá muito de acordo com a vontade de Deus, expressa em sua Palavra. Graças a Deus existem inúmeras exceções a esta regra, e eu tenho conhecimento de algumas. 

Porém, mais do que falar sobre pragmatismo, gostaria de falar sobre algo que observei e que me deixou ainda mais preocupado, especialmente quando me deparei com o seguinte texto da epístola aos gálatas: 

Acaso busco eu agora a aprovação dos homens ou a de Deus? Ou estou tentando agradar a homens? Se eu ainda estivesse procurando agradar a homens, não seria servo de Cristo”. (Gl 1:10

Vou direto ao ponto. Não obstante este alerta de Paulo, a verdade é que na grande maioria das vezes, planejamos nossos ministérios eclesiásticos (aqueles cujo serviço são executados diretamente através da congregação) de forma que eles se tornem agradáveis às pessoas, especialmente aos visitantes, aos quais nutrimos a esperança de que passem a fazer parte de nossa congregação. 

Pude observar, por exemplo, músicas do repertório dos cultos sendo escolhidas, tendo como princípio norteador a aceitação das pessoas. Se acreditarmos que a melodia será atraente, dançante ou que “tocará” o coração delas, incluímos determinada canção, do contrário será descartada. Pouco ou quase nada é levada em consideração a letra da canção, se esta glorifica ou não a Deus, se agradará ou não a Ele. 

O mesmo acontece na escolha dos temas das pregações, buscamos aquelas que serão bem recebidas pelas pessoas e se atenderão às suas expectativas. Muitas vezes nem mesmo verdades básicas do Evangelho são levadas em consideração, o importante é atrair pessoas para a igreja. Fazemos o mesmo com o teatro, com os temas das escolas bíblicas (quando elas existem), inclusive criamos ministérios que servem exclusivamente a este propósito, como é o caso dos ministérios de dança que, se não possuírem caráter evangelístico, apenas atendem ao propósito de “enfeitar” o culto, agradando e entretendo aqueles que participam do mesmo. 

Ora, essa atitude se constitui num tremendo engano, para não chamar de engodo. Tudo o que fazemos, quer comamos, quer bebamos, quer façamos qualquer outra coisa, deve ser feito para honra e glória de Deus (1Co 10:31). Dessa maneira, aos escolher uma canção, devemos levar em consideração tão somente se Deus se agradará dela. 

Mas como saber se será do agrado de Deus? 

Simples, quando for bíblica, quando em sua essência (letra) glorificar a Deus com verdades e com expressões verdadeiras de adoração. Da mesma maneira devemos agir com as outras coisas. Tudo em nossa vida, em especial naquilo que envolve a Igreja, deve ser feito e escolhido de forma que agrade tão somente a Deus. Se ao agradar a Deus as pessoas também se sentirem agraciadas ótimo, do contrário ficamos sempre com Deus. Essa deve ser a postura de todo cristão que exerce funções ministeriais. 

Devemos tomar cuidado de não sermos encontrados buscando agradar a homens e, em consequência disso, sermos surpreendidos por Deus quando disser: Apartai-vos de mim, pois nãos vos conheço. 

Paulo deixa isso bem explícito ao alertar que, se estivesse buscando agradar pessoas, na verdade não seria um servo de Cristo. 

Penso que este não seja um problema tão difícil de resolver, pois tenho absoluta convicção de que, a exemplo do que acontecia com os romanos (Rm 10:1-2), a maioria das pessoas que agem dessa forma agem com sinceridade diante de Deus, acreditando que seja uma postura correta. Porém estão enganados e isso pode leva-los a encontrar uma justiça falsa, assim como estava acontecendo com os romanos, motivo pelo qual Paulo decidiu escrever a respeito. 

Atente-se a isso, organize e planeje seu ministério de forma que seja agradável a Deus, mesmo que isso não gere tantos frutos assim. Lembre-se, o Evangelho continua sendo loucura para o mundo, você não precisa ficar preocupado se a pregação dele não estiver causando um crescimento explosivo, pois é Deus quem dá o crescimento (1Co 3:6). 

Nem sempre o que é eficaz é a coisa correta a se fazer. Pense nisso. 

Deus abençoe a todos nós.



19 setembro, 2012

Eu disse não ao show gospel



Por Ruy Cavalcante

Há algum tempo atrás, mesmo com os olhares “atravessados” e os comentários do tipo “nada a ver”, “que exagero” ou "que besteira", decidi não mais participar de shows gospels (show evangélicos se preferir), ao mesmo tempo em que iniciei uma tímida e quase invisível campanha contra os mesmos. Eu havia decidido dizer não e na época, nem mesmo minha esposa entendia isso. 

Somente o fato de serem chamados shows, já era motivo suficiente para não passar nem próximo de lá, pelo menos em minha mente. Pagar para adorar então, para mim se tornou um absurdo, simplesmente isso não entrava mais em minha cabeça. E pensar que um dia eu já sonhei estar no palco, fazendo a mesma coisa que hoje tenho pavor. 

Bom, antes de tudo, preciso dizer que de lá para cá nada mudou, a única transformação é que me tornei ainda mais convicto desta decisão: Eu não participo mais de shows gospels. 

Definitivamente, não é isso o que o evangelho me ensina. Afora os defensores, que são milhões, não considero show gospel uma espécie de culto, não acho que seja uma forma correta de adoração, tampouco acho que a adoração deva ser fonte de lucro, de muito lucro. 

Ora, em que momento o cristianismo virou um negócio? Com base em que pagamos para que outros, apresentando-se como ministros de Deus, adorem? Com que objetivo transformamos adoradores em estrelas da música, que enriquecem às custas do que chamam de ministério? Sinceramente, é isso o que a bíblia ensina? A piedade e o serviço cristão passou, de fato, a ser fonte de lucro (1Tm 6:5)? 

Não, de jeito nenhum. O que me parece é que, na verdade, deixamos que o mundo se tornasse parte de nossa natureza restaurada. O que dantes deveria ser abolido, agora é parte de nosso cotidiano eclesiástico, e o que é pior, é considerado tão ou mais santo quando o hábito de orar, jejuar e de meditar na palavra de Deus. 

A impressão que me dá é que as pessoas acham que estão fazendo um serviço ao Reino de Deus quando pagam para ir a um Show Gospel, para muitos aquilo realmente é o máximo que fazem para Deus, por isso defendem com sangue a manutenção desta obra prima do relativismo e liberalismo cristão. 

Criamos monstros midiáticos, pessoas acima do bem e do mal, cujas palavras se tornam doutrinas e dogmas, cujas atitudes não podem ser questionadas e dos quais as canções se tornam uma apêndice do evangelho, como se fossem canonizadas pelo apelo popular (da população evangélica), quando na verdade, em sua maioria, não passam de produtos comerciais, sem conteúdo bíblico, tão pobres e estragados quanto outros sucessos seculares, como os “tchus, tchas” da malfadada cultura nacional. 

Só para esclarecer, minha critica não é simplesmente aos shows, mas à capitalização da música cristã, ao fato de havermos rebaixado a adoração a Deus a um simples negócio, muito lucrativo por sinal. Isso me enoja, o movimento gospel, especialmente o musical, me causa asco. 

Na bíblia não existiam super astros. Nem mesmo Jesus, o único de fato perfeito e digno de adoração, aceitou este papel. 

Recentemente, num show gospel em minha cidade, durante a maior exposição agropecuária do estado, milhares de jovens evangélicos se espremiam nas arquibancadas para “adorar a Deus” junto com o “ministro”. Ao final do show, na saída lateral, centenas deles se estapeavam para conseguir chegar um pouco mais próximo do cantor. Enquanto o mesmo dava “tchauzinhos”, aqueles jovens cristãos choravam, gritavam, corriam desesperadamente, pulavam a cerca e não poucos desmaiavam emocionados, sendo socorridos pelos policiais da delegacia que funcionava a 5 metros desta saída, até que ambulâncias chegassem para socorrê-los. Eu era um dos policias que tirava plantão ali. 

Isso é cristianismo? É isso que significa ser nova criatura? 

Não, isso não passa de um absurdo, e eu continuarei não alimentando isso. Além de não participar de shows, decido também não comprar mais CDs de artistas gospels, salvo daqueles que não fazem shows, que não cobram para adorar, que não se portam como estrelas, que não aceitam o papel de pop stars e que são capazes de cultuar a Deus tanto em grandes eventos cristãos, quanto na igreja da esquina, SEM COBRAR NADA por isso. 

Não me aprofundarei mais na questão por enquanto, mas gostaria de lembrar algo. 

Existiam (mesmo na bíblia) e ainda existem pessoas que são sustentadas pela obra de Deus, pela Igreja de Deus, a própria bíblia chega a incentivar essa prática e defende que “digno é o trabalhador de seu salário (Lc 10:7)”. Porém, a palavra é “SUSTENTO”, elas eram sustentadas pela Igreja, tinham suas necessidades supridas, nenhuma delas enriquecia às custas do trabalho cristão. Elas não recebiam um pagamento em dinheiro, muito menos eram pagas para adorar ou para pregar. 

Outra coisa importante é que todas as que eram sustentadas, se dedicavam integralmente à igreja, cuidando dos afazeres diários, do ensino bíblico, organizando e ministrando os cultos, resolvendo as questões entre os irmãos, aconselhando, exortando, treinando, incentivando, intercedendo e tudo o mais que envolve uma comunidade que serve a Deus. No caso dos apóstolos e líderes com mais destaques isso era ampliado sobremaneira, pois eles cuidavam de igrejas e dezenas de cidades, passando toda suas vidas de cidade em cidade, servindo a Deus. Paulo inclusive, abria mão desse direito (o de ser sustentado) para não ser pesado aos irmãos (2Co 11:9), e mesmo se dedicando integralmente, nos intervalo continuou com seu ofícios de criar tendas para adquirir seu próprio sustento (At 18:3). 

Definitivamente, Paulo era diferente do que vemos hoje: 

“Pois, nunca usamos de palavras lisonjeiras, como sabeis, nem agimos com intuitos gananciosos. Deus é testemunha, nem buscamos glória de homens, quer de vós, quer de outros, embora pudéssemos, como apóstolos de Cristo, ser-vos pesados; antes nos apresentamos brandos entre vós, qual ama que acaricia seus próprios filhos”. (1Ts 2:5

“Eis que pela terceira vez estou pronto a ir ter convosco, e não vos serei pesado, porque não busco o que é vosso, mas sim a vós; pois não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos”. (2Co 12:14

E então, nossos artistas gospels se encaixam nesse perfil?