25 fevereiro, 2013

Narcisismo gospel

Por Ruy Cavalcante

A palavra “narcisismo” é derivada da Mitologia Grega. Narciso era um jovem e belo rapaz (não, não era eu, rsrs) que rejeitou a ninfa Eco, que desesperadamente o desejava. Como punição, foi amaldiçoado de forma a apaixonar-se incontrolavelmente por sua própria imagem refletida na água. 

O narcisismo excessivo dificulta o individuo a ter uma vida satisfatória, é reconhecido como um estado patológico e recebe o nome de Transtorno de personalidade narcisista. Indivíduos com o transtorno julgam-se, dentre outros, grandiosos e absolutamente especiais. 

Posto isso, gostaria de falar um pouco da característica narcisista da igreja neoevangélica, que tem seus primeiros sintomas com o advento do pentecostalismo, mas que encontra seu auge totalmente estabelecido nas igrejas neopentecostais. 

É incrível como o consenso nessas igrejas é que somos de uma grandiosidade extrema. Expressões como “Eu profetizo”, “Eu declaro”, “Eu decreto”, “Eu ganho almas”, “Eu determino”, “minhas palavras (ou nossas palavras) tem poder”, e coisas afins, passaram a fazer parte do “Canon” evangélico, e são ditas com pompas de autoridade monárquica. 

O pior é que as igrejas históricas também começam a absorver tais procedimentos, pois é algo extremamente infectante. Passamos a acreditar de fato que temos tanto poder e grandiosidade assim. 

Nossas músicas cantam isso, nossos púlpitos anunciam isso, e em nossas orações esbravejamos palavras de ordem espirituais, como se pudéssemos de fato “trazer coisas a existência”, ou exigir alguma coisa dos anjos ou mesmo de Deus. 

A coisa fica ainda mais séria quando vemos lideres e irmãos anunciando maldições sobre a vida de outros, declarando derrotas na vida daqueles que discordam de suas afirmações, ou que questionam seus ensinamentos, sob a suposição de que possuem tal poder. Pior ainda por ser algo que se prolifera e, quando menos percebemos, também estamos ameaçando com maldições espirituais aqueles que não se encaixam em nosso padrão de convivência. Tudo isso fruto dessa síndrome narcisista que tem tomado conta de nossa vida, fazendo-nos acreditar que somos poderosos. 

Além disso, o desejo hoje parece ser o inverso do ensinado por Cristo, quando diz: 

Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos”. (Marcos 10:41-44

Hoje ensinam o contrário, ensinam que somos especiais, que o líder deve ser honrado até mesmo com suas finanças, que temos autoridade sobre a vida um do outro. É a velha história, manda quem pode, obedece quem tem juízo. E todos querem obedecer, não porque são humildes, mas por desejar um dia ser obedecidos igualmente, por outros irmãos novatos no processo. 

Tudo é um jogo de interesses, todos querem ser servidos, todos se acham especiais. Não se deseja mais ser o servo do irmão, mas o líder de sua vida. E a roda não para de girar, o escravo de hoje se submete a isso para ser honrado com a liderança de amanhã. 

Essas coisas são muito estranhas para mim, pois não encontro nada disso no evangelho. Por esse motivo também não entendo a relutância em abandonar esse tipo de conceito, em se submeter à verdade bíblica, aos exemplos e palavras de Cristo. 

Por hora gostaria apenas de declarar o seguinte: Eu não tenho autoridade, minhas palavras não têm poder e eu não preciso ser temido. Eu quero cantar canções que engrandeçam Deus e não a mim, eu quero pregar e ouvir o anúncio de palavras que valorizem Cristo e não o meu ego. Eu quero servir e não ser servido. 

E que Deus tenha misericórdia de mim todas as vezes que eu desejar o contrário disso, me fazendo retornar à minha sanidade espiritual.
 



14 fevereiro, 2013

Venha para Cristo e viva confortavelmente!

Por Ruy Cavalcante

Há algo acontecendo no Brasil que não se pode negar nem mascarar: A igreja evangélica está crescendo, aliás, está crescendo muito, de forma explosiva, numa progressão geométrica cuja ‘razão’ é bem alta (quem lembra as aulas de PA e PG, em matemática, vai entender).

As causas de tal crescimento são muitas, mas infelizmente pouco tem haver com o Evangelho puro e simples (desculpe se parece uma visão fundamentalista). Carecemos de pesquisas científicas a respeito, mas de forma empírica, com um mínimo de atenção, podemos perceber que grande parte desse crescimento, se constitui de pessoas em busca de conforto.

As pessoas estão freqüentando igrejas (e não vivendo como igreja), pois desejam uma vida melhor, com melhores empregos, melhores relacionamentos, melhores bens, mais saúde, mais alegria. Isso tudo é muito bom realmente, mas me preocupa quando este é o objetivo fim de uma vida com Jesus. Fico inquieto ao perceber que, aparentemente, a maioria não entendeu o foco do Evangelho, o motivo pelo qual Jesus foi morto, a intenção de Deus ao executar seu unigênito.

Vou resumir então: Jesus morreu não para que eu tivesse uma boa vida nesta terra, mas para que eu não fosse condenado por causa da ‘boa vida’ que eu levava, antes sobre si mesmo recebeu a justiça (morte) que era contra mim, para que eu vivesse e o servisse para sempre, com ou sem conforto (Rm 6:3; Mc 8:34; Rm 8:36).

Se observarmos a vida dos primeiros discípulos, especialmente dos apóstolos, perceberemos que nenhum deles viveu de forma confortável, isento de problemas e preocupações, aliás, se tem algo que não lhes faltou foram problemas (2 Co 11:23-28; At 16:22-24; 2 Tm 3:12), e isso já seria motivo suficiente para que alguém, com zelo pela verdade, perdesse o crédito em pregações que anunciam uma vida tranqüila, sem dor nem sofrimento, aos que se entregam a Cristo.

Entretanto, não posso negar que em Cristo conquistamos conforto e segurança, não conforme o que as pessoas têm buscado incessantemente, mas um conforto duradouro, definitivo, eterno, assim como a segurança de que isto de fato acontecerá.

Ou seja, em Cristo temos a segurança de que nossos pecados serão perdoados e de que não entraremos em juízo, antes, habitaremos com Ele eternamente, sem dor, sem sofrimento, sem lágrimas, pois ele converterá nosso pranto em riso. Mas não agora, não nesta terra. Na terra temos a segurança, mas o conforto é somente na glória.

Deus pode nos dar conforto aqui e agora? Claro que pode, Ele é Deus e pode fazer o que quiser. Mas isso depende exclusivamente da vontade dEle, não da nossa, pois não existe essa promessa, e nem temos autoridade para exigir nada (precisamos nos enxergar).

Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:15-16).

Nada contra o crescimento, mas que ele ocorra baseado num Evangelho verdadeiro, assim teremos vida, assim teremos paz.



02 fevereiro, 2013

Uma Pastoral para a Decepção! (Ariovaldo Ramos)

Ariovaldo Ramos

Quando, na década de 80, a teologia da prosperidade chegou ao Brasil, ela veio como uma nova tese sobre a fé, prometia o céu aqui para o que tivesse certo tipo de fé. As promessas eram as mais mirabolantes: garantia de saúde a toda prova, riqueza, carros maravilhosos, salários altíssimos, posições de liderança, prosperidade ampla, geral e irrestrita.

Lembro-me de, nessa época, ter ouvido de um ferrenho seguidor dessa teologia que, quem tivesse fé poderia, inclusive, negociar com Deus a data de sua morte, afirmava que, na nova condição de fé, em que se encontrava, Deus teria de negociar com ele a data de sua partida para mundo dos que aguardam a ressurreição do corpo.

Estamos, há mais de vinte anos convivendo com isso, talvez, por isso, a grande pergunta sobre essa teologia seja: Como têm conseguido permanecer por tanto tempo? A tentação é responder a questão com uma sonora declaração sobre a veracidade desta proposição, ou seja, permanece porque é verdade, quem tem fé tem tudo isso e muito mais. Entretanto, quando se faz uma pesquisa, por mais elementar, o que se constata é que as promessas da teologia da prosperidade não se cumpriram, e, de fato, nem o poderiam, quando as regras da exegese e da hermenêutica são respeitadas, percebe-se: não há respaldo bíblico. Então qual a razão para essa longevidade?

Em primeiro lugar, a vida longa se sustenta pela criatividade, os pregadores dessa mensagem estão sempre se reinventando, vivem de promover espetáculos ás custas da boa fé do povo. Mesmo os mais discretos estão sempre expondo o povo, em alguns casos, quando mais simplório melhor, em outros, quanto mais bonita, e note-se o feminino, melhor.

Além disso, é uma sucessão de invencionices: um dia é passar pela porta x, outro é tocar a trombeta y, ou empunhar a espada z, ou cobrir-se do manto x, e, por aí vai. Isso sem contar o sem número de amuletos ungidos, de águas fluidificadas e de bênçãos especiais. Suas igrejas são verdadeiros movimentos de massa, dirigidos por “pop stars” que tornam amadores os mais respeitados animadores de auditório da TV brasileira.

Em segundo lugar, a vida longa se mantém pela penitência; os pregadores dessa panacéia descobriram que o povo gosta de pagar pelos benefícios que recebe, algo como “não dever nada a ninguém”, fruto da cultura de penitência amplamente disseminada na igreja romana medieval, aliás, grande causadora da reforma protestante. Tudo nessas igrejas é pago. Ainda que cada movimento financeiro seja chamado de oferta, trata-se, na prática, de pagamento pela benção.

Deus foi transformado num gordo e avaro banqueiro que está pronto a repartir as suas benesses para quem pagar bem, assim, o fiel é aquele que paga e o faz pela fé; a oferta, nessas comunidades, é a única prova de fé que alguém pode apresentar.

Na idade média, como até hoje, entre os romanos, Deus podia ser pago com sacrifícios, tais como: carregar a cruz por um longo caminho num arremedo da via “crucis”, ou subir de joelhos um número absurdo de degraus, ou, em último caso, acender uma velinha qualquer, não é preciso dizer que a maioria escolhe a vela. Mas, isso é no romanismo!

Quem quer prosperidade, cura, promoções, carrões e outros beneplácitos similares tem de pagar em moeda corrente, afinal, dinheiro chama dinheiro, diz a crença popular. E tem de pagar antes de receber e, se não receber não pode reclamar, porque esse deus sabe o que faz e, se não liberou a bênção é porque não recebeu o suficiente ou não encontrou a fé meritória. Esses pregadores têm o consumidor ideal.

Em terceiro lugar são longevos porque justificam o pior do capitalismo, embora, segundo Weber, o capitalismo seja fruto da ética protestante, (aliás, a bem da verdade é preciso que se diga que o capitalismo descrito por Max Weber em seu livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo” não é, nem de longe, o praticado hoje, que se sustenta no consumismo, enquanto aquele se erguia da poupança.); a fé cristã, de modo geral, não se dá bem com a busca pela riqueza como objetivo em si.

A chegada, porém, dessa teologia mudou o quadro, o pior do capital está, finalmente, justificado, foi promovido de grilhão que manieta a fé em troféu da mesma. Antes, o que se assenhoreava do capital tornava-se o avaro acumulador egoísta, agora, nessa tese, é o protótipo do ser humano de fé. Antes, o que corria atrás dos bens materiais era um mundano, hoje, para esses palradores, é o que busca o cumprimento das promessas celestiais.

Juntamente com o capitalismo, essa mensagem justifica o individualismo, a bênção é para o que tem fé, ela é inalienável e intransferível. Eu soube de uma igreja dessas que, num rasgo de coerência, proibiu qualquer socorro social na comunidade para não premiar os que não tem fé. Assim, quem tem fé tem tudo quem não tem fé não tem nada.

Antes, ter fé em Cristo colocava o sujeito na estrada da solidariedade, hoje, nesse tipo de pregação, o coloca no barranco da arrogância. Toda “esperteza” está justificada e incentivada. Não é de estranhar que ética seja um artigo em falta na vida e no “shopping center” de fé desses “ministros”.

Mas, o que isso tudo tem gerado, de verdade? Decepção, fragorosa decepção é tudo o que está sobrando no frigir dos ovos. As bênçãos mirabolantes não vieram porque Deus nunca as prometeu, e Deus não pode ser manipulado. O sucesso e a riqueza que, porventura, vieram foram mais fruto de manobras “espertalhonas”, para dizer o mínimo, do que resultado de fé.

Aliás, para muitos foi ficando claro que o que chamavam de fé, nada mais era do que a ganância que cega; o antigo conto do vigário foi substituído pelo conto do pastor. Gente houve que ficou doente, mas, escondeu; perdeu o emprego, mas, mentiu; acreditou ter recebido a cura, encerrou o tratamento médico e morreu. Um bocado de gente tentando salvar as aparências, tentando defender os seus lideres de suas próprias mentiras e deslizes éticos e morais; um mundo marcado pela esquizofrenia.

O individualismo acabou por gerar frieza, solidão e, principalmente, perda de identidade, porque a gente só se torna em comunidade.

Tudo isso acontecendo enquanto muitos fiéis observavam o contraste entre si e seus pastores, eles sendo alcançados pela perda de bens, pela angústia de uma fé inoperante, pela perda de entes queridos que julgavam absolutamente curados, e os pastores se enriquecendo, melhorando sensivelmente o padrão de vida, adquirindo patrimônio digno de nota, sendo contados entre o “jet set”, virando artistas de TV, tudo em nome de um evangelho que diziam ter de ser pregado, e que as suas novas e portentosas posses avalizavam.

E onde estão estes decepcionados? E para onde estão indo os seus pares? Muitos estão, literalmente, por aí, perderam aquela fé, mas não acharam a que os apóstolos e profetas da escritura judaico-cristã anunciaram; ouviram o nome Cristo, mas não o encontraram e pararam de procurar. Talvez, estejam perdidos para evangelho; para sempre.

Outros, no meio de tudo isso, foram achados por Cristo, e estão procurando pelo lugar onde ele se encontra. Para os primeiros não há muito que fazer a não ser interceder diante do Eterno, para que se apiede dos que foram vergonhosamente enganados; para os que estão a procura, entretanto, é preciso desenvolver uma pastoral.

Eles não estão chegando como chegam os que estão em processo de reconhecimento de Deus e do seu Cristo. Estão batendo às portas das comunidades, que julgam sérias com a Bíblia, à procura de cura para a sua fé, para a sua forma de ser crente, para a sua esperança de salvação, para a sua falta de comunidade e para a sua confusão doutrinária.

Precisam, finalmente, ver a Jesus Cristo e a si mesmos; precisam, em meio a tanta desinformação encontrar o ensino, em meio a tanto engano recuperar a esperança. Necessitam de comunidade e de identidade, de abraço e de paciência, de paz e de alento, de fraternidade e de exemplo, de doutrina e de vida abundante.

Quem quer que há de recebê-los terá de preparar-se para tanto, mesmo porque, ainda que certos da confusão a que foram expostos, a cultura que trazem é a única que têm, e nos momentos de crise, de qualquer natureza, será a partir desta que reagirão, até que o discipulado bíblico construa, com o tempo, uma nova e saudável cultura. 

Hoje, para além de tudo o que encerra a sua missão, a Igreja tem de corrigir os erros que, em seu nome, e, em muitos casos, sob a sua silenciosa conivência, foram e, ainda, estão sendo cometidos.

http://ariovaldoramosblog.blogspot.com.br

--------------

Minha opinião é que essa teologia da prosperidade é um cancer, e ainda destruirá muitas vidas.