19 setembro, 2013

Proselitismo integral

Por Ruy Cavalcante

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o tornais duas vezes mais filho do inferno do que vós”. (Mt 23:15)

Segundo o dicionário Vine, prosélito (do grego προσήλυτος/proselytos) significa “estranho”. Há várias definições para esse termo, porém todas elas indicam, resumidamente, alguém que, apesar de ser estranho, desconhecido, sem identificação, se torna adepto de outra visão (ideologia, religião), abandonando as suas convicções. Esse termo indica muitas vezes os peregrinos que aderiam à religião judaica nos tempos bíblicos, por força das circunstancias.

Na perspectiva indicada por Cristo no texto acima, eu faço um prosélito quando convenço alguém a ser meu discípulo, através dos mais variados argumentos, contrariamente ao que a bíblia determina: fazer discípulos de Cristo, atraídos pela Graça de Deus, onde esta, por sua vez, é ministrada a eles pelo Evangelho de Jesus.

Há poucos dias atrás debatíamos eu e meus colegas, do curso de Ciências Sociais, sobre sociedade e religião. Como é comum nesse tipo de ambiente acadêmico, especialmente em cursos de ciências humanas, a maioria dos argumentos são contrários a influencia da igreja nas questões sociais (a maioria não entende a diferença entre Igreja santa, imaculada, e igreja instituição, conjunto de crentes que professam ser cristãos).

Infelizmente tudo o que o professor e alguns alunos falavam sobre a igreja, de forma negativa, era verdade. É fato que boa parte dos nossos representantes, especialmente os que enveredam pelos campos da política partidária, são corruptos ou corruptíveis. É fato que a igreja evangélica não tem conseguido dar um bom testemunho para os de fora, pelos motivos já expostos aqui no blog. Mas me chamou a atenção os argumentos de uma colega, que embora não fosse cristã evangélica, defendia a igreja.

Ela dizia que apesar do que se diz, a igreja tem sim atuado de forma muito positiva, pois ela mesma é testemunha de diversos eventos sociais promovidos por igrejas, nos mais variados bairros de Rio Branco, coisa que também deve acontecer noutras cidades Brasil afora.

Bom, apesar de eu mesmo ser cristão evangélico, pessoalmente concordo com ela apenas em partes. Poucas partes. 

Realmente muitas igrejas têm atuado em questões sociais. Por vezes promovem distribuição de “sacolão” e roupas para famílias carentes, sopas para desabrigados, e em alguns casos até cursos gratuitos para pessoas carentes. Porém, numa análise um pouco menos superficial, podemos perceber facilmente que, na maioria das vezes, a intenção é fazer prosélitos.

Muitos dos casos que vivenciei, quase todos pra ser mais sincero, são de crentes que estavam mais preocupados em levar pessoas para suas igrejas, para o crescimento de seus respectivos ministérios. Pouquíssimos estavam realmente preocupados em mudar a realidade social daquelas famílias. E o que é pior, mesmo para estes que tentam “ganhar para a igreja”, não lhes é anunciado o Evangelho. 

Creio que a igreja deve sim realizar uma missão integral, cuidando de anunciar o Evangelho enquanto busca de todas as formas ajudar na solução dos outros problemas que assolam o indivíduo, das questões sociais, do socorro ao necessitado (Tg 2:15-16). Mas o fundamento para tudo isso deve ser o amor e o desejo genuíno de que Deus possa salvá-los, ainda que jamais pisem em nossos templos.

Mas não é isso que tem acontecido, pois até mesmo quando fazemos o bem, temos outras intenções, queremos ser beneficiados com isso. Em última instancia o objetivo é sempre que nossa igreja cresça em números, seja destaque entre as outras, pois já esquecemos há muito tempo a quem a Igreja de fato pertence.

O que fazemos é proselitismo e não evangelismo. Convencemos as pessoas a aderirem a nossa visão, a nossa denominação, seja através de uma ajuda com segundas e terceiras intenções (a exemplo dos projetos sociais do PT, como a bolsa família, puramente eleitoreira), seja através de promessas enganosas. Dessa forma fazemos discípulos de nós mesmos, com a nossa visão e identificados com a nossa denominação, mas com nenhuma identificação com Cristo. O destino delas será o mesmo que o nosso, caso não haja arrependimento por essa prática maligna, pois serão estranhos, desconhecidos por Cristo (Mt 25:12).

Graças a Deus que há sim exceções! Na verdade sempre haverá aqueles que não se dobram a baal, que agem por amor a Deus e a sua Palavra, que continuam desejando ser sal e luz do lado de fora de seus templos, e que não buscam apenas o proveito próprio (I Co 10:24). 

Essa é a verdadeira Igreja de Cristo, que cumpre seu papel social por entender que foi chamado para as boas obras (Ef 2:10), sem esperar nada em troca, pois sabe que o que existe de maior valor já lhe foi entregue na cruz, de graça, pela Graça, restando agora tão somente servir a Deus e ao próximo. Esse é o verdadeiro corpo de Cristo, que não abre mão da verdade, que anuncia o Evangelho verdadeiro, ainda que isso não tenha como consequência o reconhecimento dos homens.

É dessa Igreja que quero ser parte, reconhecida pelo amor (Jo 13:35), que tem a marca da cruz e que faz tudo por Jesus, pois sabe que para o cristão até a morte é lucrativa.

Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”. (Fp 1:21)



17 setembro, 2013

Crise ética na igreja evangélica

Por Ruy Cavalcante

Em minha graduação em teologia, meu professor de ética pastoral era contra sistemas éticos (não me perguntem por que ele era o professor, realmente não entendo até hoje). Ele considerava que a ideia de se ensinar sobre ética cristã, ou qualquer outra, trata-se tão somente de um doutrinamento, uma forma de limitar a liberdade do indivíduo. Para ele não havia diferença entre ética cristã, usos e costumes e autoritarismo.

Bom, talvez sua aversão à ética explicasse suas atitudes em sala de aula, por vezes esbravejando e proferindo ofensas quando se sentia incomodado, intempestivo, além de algo curioso: ele aparentava odiar cestos de lixo, pois sempre que perdia a linha, chutava-o com violência. Não à toa seu apelido entre nós do fundão era “chuta-balde”. 

- Silêncio, lá vem o chuta-balde. Murmurava o líder da classe (rsrs).

Discordo solenemente do posicionamento do caro professor. Pessoalmente penso que a antipatia aos princípios da ética cristã é, na verdade, fruto do relativismo moral em que nossa sociedade vive, pelo qual a igreja se permitiu contaminar. E não é de se admirar, pois conforme venho denunciando continuamente aqui mesmo no Blog, nas redes sociais, e por onde o Senhor me leva, a igreja (não a Igreja santa e imaculada, mas a conglomeração de crentes) vem se afastando gradativamente das verdades bíblicas, ocasionando que os recém “convertidos” se desenvolvam sem conhecer valores como a honestidade, verdade, sinceridade, integridade e abnegação em favor do próximo. 

Humanismo, antropocentrismo e hedonismo são princípios que tem norteado a vida de muitos daqueles que professam ser cristãos, transformando a ética apenas numa “armadilha” para que eles não alcancem seus objetivos egoístas. Nada poderia ser mais contrário ao Evangelho de Cristo.

Ao bem da verdade, ética cristã não é algo que se possa ensinar em livros ou através de artigos como este, pois trata-se de uma consequência direta da santificação do crente, obra esta que é executada por Deus (Fp 1:6), em todos, absolutamente todos, aqueles que foram alcançados por sua Graça, a ponto de se tornarem de fato, cristãos. Não há relativismo nem meio termo aqui, ou sou cristão, e mediante isso tenho ética, ou o fato de não possuí-la revela que não sou cristão. 

Dessa forma, a ética cristã é sim uma lista de regras, porém não escritas em livros, nem talhada em pedras, mas escrita na mente e no coração daqueles que foram regenerados (Jr 31:33). Não tento aqui ignorar que fora do cristianismo existe ética, sobre isso a explicação é simples: Graça comum (Tg 1:16-17). Em outra oportunidade falaremos mais sobre esse tema.

Enfim, a igreja evangélica vive uma grave crise ética. A todo instante lemos e ouvimos notícias de escândalos dentro da igreja, ou praticada por aqueles que dela fazem parte. E o pior é que muitos sequer dão-se conta disso, consideram um quadro normal, culpam o diabo, mas nunca assumem a própria responsabilidade. Relativizam o pecado, blindam de criticas os líderes carnais e hedonistas. Ensinam o erro deliberadamente.

A solução é o que muitos irmãos (porém poucos, se comparados a quantidade total de evangélicos) já têm apresentado mundo afora: Voltar ao Evangelho Puro e Simples. É sendo alcançado pelo Evangelho de Cristo, puro, santo e perfeito que o ser humano será liberto de seu próprio mal, o que o tornará apto a vencer o pecado e agir como cristão santo, ético, restaurado e disposto a ser sal e luz para os de fora, para aqueles que mesmo sem conhecer, tem sede de Cristo, mas que não tem tido oportunidade de ter essa sede saciada, pois estamos preocupados demais com nosso próprio bem estar.

As cinco virgens prudentes alertam as que estão loucas: Acordem! Encham de azeite suas lâmpadas! O noivo está próximo!

Que Deus tenha misericórdia da igreja evangélica.



03 setembro, 2013

Movimento "Voltemos ao Evangelho Puro e Simples" na Expo Gospel Acre


Por Ruy Cavalcante

No último final de semana foi realizado a 3ª Expo Gospel Acre, evento inspirado na Feira Cristã de São Paulo, e que toma dela também o seu caráter puramente comercial. Durante algum tempo vinha pensando o que eu poderia fazer em favor da “conspiração” que decidi participar, em favor do Evangelho Puro e Simples, com o tema “Voltemos ao Evangelho”, movimento este que conta com a participação de vários irmãos Brasil afora, muitos dos quais considero verdadeiros amigos, embora estejamos a milhares de quilômetros de distância, donde destaco os mineiros, sem citar nomes para não ser injusto, pois todos tem me ajudado bastante com conselhos, inspirações, orações e exemplos.

Infelizmente os irmãos que vinham me acompanhando nessa luta por aqui estão (espero que momentaneamente) impedidos por questões de cunho pessoal, o que dificultou ainda mais os planos para a realização de protestos e esclarecimentos referente ao Evangelho de Cristo.

Pois bem, pensei então em vestir minha camiseta do movimento, me munir de uma câmera emprestada, e ir pra lá na esperança de ser indagado por alguém, e começar a falar a respeito de tudo o que tem afrontado as verdades do Evangelho, de como eventos como esse fomentam essa deturpação, quem sabe receber um empurrão, um pescotapa e virar mártir (rsrs bricadeirinha).

Foi então que a faculdade de teologia onde leciono, aqui mesmo em Rio Branco, propôs aos organizadores do evento a realização de um debate, com o tema “Igreja e Sociedade, desafios para o século XXI”, para discutir sobre o que a igreja pode fazer em beneficio da sociedade de maneira prática, e o porquê de não estar conseguindo fazer isso. A ideia foi aceita, entretanto os organizadores não permitiram que a faculdade escolhesse os preletores, tomando para si essa função. Por motivos óbvios, eles convidaram apenas políticos da bancada evangélica para participar da mesa e responder as perguntas dos inscritos no debate.

Claro que eu me inscrevi, e comecei a elaborar perguntas que pudessem trazer a discussão para o que eu considerava cerne da questão, que é o fundamento pelo qual boa parte dos evangélicos tem “aderido” à igreja cristã, o falso evangelho da prosperidade, do triunfalismo barato, do medo e dos sinais, doutrinas estas que não tem poder algum contra o pecado, e que causam esse estado de letargia na igreja cristã, tornando-a estérea e incapaz de transformar a realidade espiritual e social (no quesito cidadania) sequer de seus próprios membros, que dirá da sociedade em geral.

Mas Deus tinha outros planos.

O debate estava agendado para a sexta feira, dia 30 de agosto, às 19:00hs. Por volta de 17:30, uma hora e meia antes do evento, eis que o diretor da faculdade me liga, dizendo que dos três preletores, dois estavam viajando e sequer comunicaram aos organizadores. São eles a Missionária e Deputada Federal Antônia Lúcia Camara, e o Pastor e Deputado Estadual Jamyl Asfuri. Somente o Pastor e Deputado Federal Henrique Afonso confirmara a participação. O diretor me disse que havia tentado contato com algumas pessoas, a fim de que composse a mesa em substituição aos faltosos, sem êxito, e que por isso estava me ligando, pedindo que eu “quebrasse esse galho”, participando do debate como um dos preletores. Claro que eu aceitei.

Rapidamente juntei alguns textos e informações, e me preparei pra responder as perguntas que eu mesmo havia elaborado, só faltava pensar numa forma de ser indagado sobre elas, ou de introduzir este assunto.

Bom, como todo seminário e/ou debate envolvendo político, houve muita embromação, mas me surpreendi positivamente com o posicionamento do Deputado Henrique Afonso, pois além de não soltar as pérolas doutrinárias costumeiras nesse tipo de situação, também não tentou transformar o debate em palanque, fica então registrado meu elogio a ele.

Entre uma fala e outra, ele levantou a bola, sem goleiro, e disse chuta! Isso aconteceu quando ele, ao falar sobre os motivos pelo qual a igreja não tem conseguido exercer bem seu papel social, afirmou que isso se dava pelo fato de ela vir sofrendo muitos ataques externos, tanto filosóficos quanto políticos. Ao término de sua defesa, pedi a palavra e chutei a bola, ou seja, falei que esse problema existe, mas o fundamento é outro.

Daí claro, parti para a defesa do Evangelho, tentando também mostrar que essa letargia é gerada por nós mesmos, ao fazer do evangelismo uma simples estratégia proselitista, formando crentes não moldados pelo evangelho verdadeiro, identificados com a igreja, mas não com Cristo, desejosos de se dar bem, mas não de fazer o bem, consequência direta do “evangelho” da barganha que tem sido oferecido a eles. Isso também explica o porquê de haver evangélicos figurando em praticamente todos os escândalos políticos no Brasil, dentre tantas outras questões. Empolguei-me, falei tudo, falei alto, parecia o Marco Feliciano quando o som do teclado acelera J.

No início estava bem apreensivo, confesso, com dor de barriga inclusive. Achei que seria convidado a me retirar, mas nada disso aconteceu. As pessoas gostaram do que ouviram, me parabenizaram, bateram palmas. Ao final fiquei mais de uma hora em conversa informal com alguns dos presentes, que me indagavam sobre vários assuntos apologéticos. Recebi convites para outros debates, inclusive para uma tribuna cristã, que o Deputado diz ocorrer na Assembleia Legislativa, algo que eu tinha total desconhecimento.

Mas isso não me deixa feliz. Já recebi palmas outras vezes, em outros locais, por causa do mesmo discurso. Já recebi convites, tapinha nas costas, já pediram meu telefone, meu e-mail, mas ao passar de uma semana, todos os que elogiaram estavam praticando as mesmas coisas que eu havia criticado, seja por covardia, temendo perder espaço em suas igrejas, perder salários, seja porque simplesmente exerceram a política da boa vizinhança comigo.

Aliás, mesmo tendo essa oportunidade, fiquei triste, pois a liderança que eu torcia que estivesse lá não estava, pois haviam boicotado o evento, como sempre fazem quando não participam do comitê organizador. Tudo por aqui é um jogo político, especialmente entre as grandes igrejas, e eu pude observar isso nas entrelinhas.

A esperança é que dessa vez os jovens que estavam presentes possam ao menos repensar sua fé, avaliar tudo o que foi dito e se tantas informações fazem sentido, se podem ser confirmadas com a Palavra Infalível de Deus. Quem sabe os mais velhos e experientes também possam fazer isso. Não havia tantas pessoas lá. Entre inscritos e organizadores presentes talvez somassem 80 pessoas na sala ambientada para o debate, muitas das quais eram alunos da própria faculdade, mas todos participam ativamente de suas congregações. Deus sabe o que faz e, se Ele quiser, trabalhará no coração deles como tem trabalhado no meu, me cobrando continuamente, exigindo cada dia mais zelo pela sua Palavra, me moldando, me perdoando.

Como estava só não pude filmar nem tirar fotos, mas voltei um dia depois para fazer algumas imagens. Porém a feira foi um fracasso total, pois como disse anteriormente, as grandes igrejas boicotaram a feira, portanto não houve muita coisa importante para registrar.

No mais, apenas comércio, sincretismo e inutilidades.

Dessa forma encerro pedindo oração aos irmãos pelo meu Acre querido, o Estado da federação mais neopentecostal de todos, proporcionalmente ao número da população. Orem por misericórdia, orem para que Deus levante homens e mulheres com coragem para se erguer contra toda afronta ao Evangelho de Cristo, e com um coração disposto a amar, perdoar e ensinar sobre Cristo com sua própria vida.

Deus abençoe a todos.