19 novembro, 2013

Uma geração de crentes com sede de vingança

Por Ruy Cavalcante

O salmo 23 é um dos textos mais lidos de toda a bíblia. Há irmãos que nunca leram um único livro completo, mas já leram o salmo 23. Há outros que sequer abriram a bíblia noutra página, pois ela permanece na estante, aberta no salmo 23.

É muito fácil explicar a razão por este salmo ser tão lido e querido: Ele nos coloca pra cima, nos dá garantia de conforto em Deus, fala de socorro e prosperidade.

Há também algo bem interessante expresso nesse salmo, algo que inspira canções e influencia boa parte da atual geração de crentes. Ele diz assim:

Preparas um banquete para mim à vista dos meus inimigos. Tu me honras, ungindo a minha cabeça com óleo e fazendo transbordar o meu cálice”. (Sl 23:5 – NVI)


Obviamente a bíblia não se contradiz e esse texto está perfeitamente em sintonia com seu contexto. Em tempos da Lei, como bem sabemos, imperava a justiça, pois a Lei é justa.

Dessa forma, ao ser ferido, era justo que meu agressor sofresse o mesmo dano. Ele que se exilasse caso desejasse livrar-se da minha justa vingança. Olho por olho, dente por dente.

Além disso, os inimigos de Israel, à medida que esta nação permanecia fiel, eram derrotados pelas mãos de Deus, humilhados e despojados. Nisso tudo a Soberania de Deus era revelada, e era justo.

É disso que fala o salmista. Seus inimigos seriam ridicularizados enquanto ele seria abençoado com um banquete e prosperidade. Nesse contexto, seus inimigos estavam em estado de afronta contra Deus, por se levantarem contra seu povo, e por isso recebiam a justa punição.

Esta questão de “amigos” e “inimigos” de Deus, no AT, é mais complexa que isso, mas tento aqui apenas tornar mais claro o que começo a dizer a partir de agora.

Enfim, com Cristo algo acontece. A misericórdia de Deus que sempre foi perfeita, se apresenta encarnada em Cristo. O justo morrendo pelo pecador. Deus perdoando aqueles que não mereciam perdão, pela sua Graça, de graça, por amor incondicional. 

Diz a bíblia que:

Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos”. (Ef 2:4-5 – NVI)

Entenda bem o que isso significa: Nós, que éramos inimigos de Deus, rebeldes, impuros, amantes de tudo que era contrário a Deus, fomos por Ele perdoados sem que déssemos a mínima para isso! Ele não poupou seu Único Filho para que nós, sendo ainda pecadores, pudéssemos ser perdoados e salvos!

E o que Jesus fala a respeito de nossos inimigos? Ele por acaso ensina que reivindiquemos vingança? Ou que oremos a Deus pedindo juízo? Quem sabe um súplica para que Deus os ridicularize em nossa presença, como vemos ensinado em algumas canções? Bem, para tirar a dúvida, Cristo está com a palavra:

"Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês". (Mt 5:43-48 - NVI, grifo meu)
Mas eu digo a vocês que estão me ouvindo: Amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam, orem por aqueles que os maltratam. Se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de tirar-lhe a túnica”. (Lc 6:27-29 - NVI, grifo meu)

Paulo acrescenta:

Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou”. (Cl 3:13 - NVI, grifo meu)

E como foi que o Senhor nos perdoou? Sem merecimento. Nós não merecíamos o perdão de Deus!

Como pode então agora, em plena Graça, tendo recebido tão grande amor, misericórdia e perdão, nós venhamos desejar a ruína de nossos inimigos? Como podemos agora pedir a Deus que faça vingança, que os ridicularize ou que traga juízo sobre suas cabeças?

Não! Esse não é o espírito do verdadeiro cristão! O cristão perdoa! O cristão suplicada a Deus que tenha misericórdia de quem o ofende!

Que parada é essa de eu estar no palco sendo aplaudido pelos meus inimigos? Que história é essa de Deus preparando uma mesa para mim perante meus inimigos? Estamos loucos? Esquecemos como fomos perdoados?

O mínimo que se espera de qualquer cristão é que ele também perdoe seus ofensores. Foi esta a oração que Jesus nos ensinou, que Deus nos perdoe “Assim como perdoamos nossos inimigos”.

Já imaginou se Deus resolvesse nos perdoar conforme nós perdoamos as outras pessoas? Seriamos fulminados!

Irmão, fuja dessa sede de vingança, isso não condiz com o espírito cristão, pois no final de tudo, considerando todas as coisas, o que nos fará sermos reconhecidos como discípulos de Cristo é o amor que temos pelas outras pessoas (Jo 13:35).

Lembre sempre que nossos inimigos não são as pessoas e peça misericórdia, não juízo, e deseje o bem, não o mal, e busque comunhão, não a afronta.

Que Deus continue tendo misericórdia de todos nós.



12 novembro, 2013

Plantando limões não se colhem morangos

Por Ruy Cavalcante

Ouço muito em pregações modernas, especialmente aquelas que duram horas falando de dinheiro (o que por si só já é absurda), declarações do tipo: Como você espera colher morangos se plantou limão?

Obviamente falam isso numa referencia ao plantio das “melhores sementes” (leia-se ‘muito dinheiro’) para que Deus nos faça prosperar, ou para que nos abençoe em outras áreas ligadas a nossa vida terrena.

Gostaria de me apropriar dessa ideia sobre plantar algo e esperar colher um produto diferente, acho que ela pode vir a calhar. Ficaria então assim a questão:

Como esperamos formar cristãos, se o que pregamos para eles não é o Evangelho de Cristo?

Façamos um exercício mental para tentar fundamentar, ainda que empiricamente, o que estou tentando dizer. A igreja evangélica cresceu de forma exponencial na última década, ultrapassando, já em 2010, a faixa de 42 milhões de evangélicos. Eu então pergunto: Você consegue lembrar rapidamente de alguma notícia ou de algum impacto positivo dentro da sociedade brasileira, em consequência desse crescimento? Alguma transformação real ou melhoria social ocasionada pelo número cada vez maior de pessoas que professam a fé cristã evangélica? Não estou falando de coisas pontuais, isoladas, estou falando de uma notícia de relevância nacional, estadual ou mesmo municipal, de um benefício real para a sociedade brasileira, você consegue lembrar?

Agora o inverso disso. Você consegue lembrar de algum impacto negativo, uma notícia ruim de grandes proporções, que de uma forma ou de outra tenha afetado uma parte considerável da sociedade, envolvendo evangélicos? Um escândalo político de grandes proporções envolvendo evangélicos, ou a notícia de desvios de grandes quantidades de dinheiro de instituições religiosas, ou de casos crescentes de pedofilia ou coisas afim?

Não sei você, mas eu só consigo lembrar de exemplos dessa segunda indagação. À minha mente só chegam memórias negativas quando se limita a questão a notícias de grandes proporções. Em questões pontuais, pela graça de Deus, há muitos bons exemplos de cristãos e igrejas (geralmente pequenas congregações evangélicas) Brasil afora.

Pois bem. No capitulo 10 de carta de Paulo aos Romanos, o apóstolo fala a respeito dos israelitas e de como eles, apesar de sinceros, tem buscado a Deus a partir de uma justiça humana, ineficaz, quando na verdade Cristo é a justiça de Deus, e apenas a partir da fé nele é que pode haver verdadeira justificação. Ele então pergunta: Mas como crerão se não há quem pregue?

E eu pergunto: Quem pregue o quê? Prosperidade? Curas? Dons? Milagres? Sinais?

Não! Paulo se refere à pregação da cruz! É somente através da pregação do Evangelho genuíno, de Cristo crucificado, do sacrifício substitutivo, do arrependimento do pecado e do perdão, é que alguém poderá ser alcançado pela Graça, se assim Deus desejar.

O Evangelho é o poder de Deus para salvação, o Evangelho da Cruz, diz Paulo aos mesmos Romanos, no capitulo 1. Não se formam cristãos regenerados pregando sobre bens materiais. Pessoas não são transformadas quando ouvem sobre milagres. Não há restauração de caráter para quem aderiu a uma igreja evangélica por meio de uma pregação sobre bênçãos ou sobre promessas individuais.

Essa transformação é gerada a partir da fé genuína em Cristo, e essa fé vem do ouvir a Palavra de Deus. Note que quando Paulo afirma isso, no capitulo 10 de Romanos, verso 17, o contexto deixa claro que ele se refere ao Evangelho, não a qualquer ensino sobre questões alheias a cruz.

Qual a consequência disso tudo?

Simples. A igreja evangélica, não obstante seu crescimento massivo, não tem conseguido ser sal, muito menos a luz do mundo, pois esse crescimento é ilusório, produzido por “agrotóxicos” que no lugar de dar vida, destrói a vida de quem ingere seus ensinos, ainda que acreditem estar ingerindo alimentos de qualidade.

Por isso tantos escândalos e quase nenhum impacto positivo para o Brasil advindo desse crescimento. Por isso tanta chacota contra a igreja, por isso tanta afronta. A própria igreja (igreja institucional) tem alimentado esse sentimento de ojeriza contra evangélicos. Não somos tão vítimas como muitos líderes tentam nos fazer acreditar.

Graças a Deus, como sempre faço questão de lembrar, existem exceções. Graças a Deus pelos que não se dobram a baal, pelos milhares de irmãos e irmãs, geralmente anônimos, que honram o Evangelho de Cristo e o Deus que nos salva, que agem como servos, que buscam o benefício de outros e não apenas de si mesmos, que levam o nome de Jesus gravado em seus corações, que possuem uma conduta cristã genuína, que buscam o Reino ainda invisível de Deus!

Voltemos então ao Evangelho, anunciemos em tempo e fora de tempo, para que ouçam e conheçam a Jesus, ainda que estejam com grossas escamas nos olhos.

Deus abençoe a todos.