01 julho, 2014

O que tenho a falar sobre dízimos...


Por Ruy Cavalcante

Coincidentemente esta semana algumas pessoas me fizeram perguntas semelhantes, pessoas que não possuem ligações entre si, que conheço via redes sociais ou mesmo pessoalmente. As perguntas são referentes a dízimos e ofertas, especialmente dízimos.

A maioria delas queria saber a minha opinião a respeito, sincera, sem levar em conta preconceitos ou assertivas pré-estabelecidas.

Bom, dessa forma resolvi transportar ao Blog uma das respostas que enviei por e-mail, desta feita a um irmão que conheci via Facebook. Transcrevo na integra a resposta dada, com algumas edições pontuais para facilitar a leitura e entendimento.

Lembro aos amigos que o que segue trata-se tão somente de minha opinião pessoal, não necessariamente um esboço teológico nem tampouco uma reprodução doutrinária. Lembro ainda que estou ciente das controvérsias que envolvem o tema. Segue o texto:

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Olá meu irmão, a paz.

Após assistir ao vídeo (clique aqui para assistir), você me pediu algumas explicações via Facebook, relacionadas ao tema de dízimos e ofertas, de forma clara e simples, bíblica e santa, uma vez que afirma não ter “sentido paz” com o conteúdo ensinado no mesmo, então tentarei fazer isso no menor número de linhas possíveis.

Começo primeiro te orientando a conferir/confirmar tudo o que eu te disser com a bíblia, pois eu não sou detentor da verdade, mas ela sim. Tentemos ser o mais humilde possível para ensinar apenas o que ela ensina.

Não farei uma análise do vídeo, não me preocuparei em refutá-lo, mas citarei apenas dois pontos tratados nele antes de começarmos.

1º - O texto "áureo" de Malaquias, a respeito dos dízimos, usado pelo pastor no vídeo, e pela maioria dos pastores mundo a fora, não foi escrito para o povo diretamente, mas para os sacerdotes e isso é muito fácil observar se você não isolar esta passagem do restante do livro. Se você ler o livro de Malaquias por inteiro, atentamente, perceberá que ele direciona seus alertas e exortações aos sacerdotes. Vou resumir o contexto e depois você  mesmo poderá ler e observar isso: 

Malaquias acusa os sacerdotes de estarem roubando a Deus, e faz isso de forma literal e não alegórica como a maioria ensina. Como você bem sabe, os dízimos foram instituídos como ordenança na Lei mosaica (já existiam dízimos antes, mas não como mandamento, a exemplo de Abraão que deu dízimos a Melquisedeque apenas uma vez). 

Continuando, eles foram instituídos como ordenança por uma razão muito clara: Após a divisão das terras de Canaã, onze tribos receberam sua parte, porém a tribo de Levi não recebeu porção de terra, pois eles deveriam viver exclusivamente para serviço do tabernáculo/templo/rituais. Dessa forma, como não tinham terra nem podia plantar, colher, criar animais nem coisas semelhantes a estas, as outras onze tribos tinham a responsabilidade de suprir suas necessidades através dos dízimos de todos os seus produtos. Essa era a porção dos levitas, é a isso que Malaquias se refere quando diz "para que haja mantimentos na minha casa". Mantimentos pra quem? Para uma casa física? Para Deus? Não, para os levitas!

Dessa forma, enquanto o povo dizimava e ofertava, os sacerdotes, responsáveis por receber as contribuições e repassarem integralmente aos levitas, estavam retendo uma parte para eles, não estavam levando "todos os dízimos", ou seja, estavam roubando. O resto você já sabe.

2º - Por volta do minuto 8 do vídeo, o pastor começa a argumentar e fazer alegorias, tentando provar que o dízimo está relacionado a redenção. Isso é um absurdo! Nem vou perder tempo provando isso biblicamente, pois não há nenhuma, absolutamente nenhuma relação entre dízimos e salvação, mesmo porque, a grosso modo dízimos são obras, e salvação nunca foi nem jamais será por obras. Imagino que isso seja algo claro para você... :)

Continuando. Vamos à forma que eu entendo ser bíblica para os dízimos.

Eu citei que já havia dízimos antes da Lei, e é verdade, Abraão deu dízimos a Melquisedeque (Gn 14:18-20), e eu te pergunto: Por que razão Abraão deu seus dízimos? Observe bem o texto, vou perguntar e eu mesmo responderei, você apenas confirma no texto:

Por mandamento? Não. Não há qualquer ordem dada a ele nesse sentido.

Para ser abençoado? Não. Note que ele foi abençoado antes de dizimar (v 19), e mesmo antes disso ele já era abençoado pelo próprio Deus, tanto que tinha muito para dizimar.

Então qual foi a razão? Foi por reconhecer que ele era sacerdote do Deus altíssimo e quis adorar a Deus com essa atitude.

Dessa forma já temos claro o propósito inicial dos dízimos: Adorar a Deus, reconhecer que Ele é o Senhor e o supridor de nossas vidas, e isso é feito por livre e espontânea vontade, não por mandamento. Lembre que “o Senhor ama quem dá com alegria” (2 Co 9:7).

Vamos a um segundo propósito dos dízimos.

Lembrando novamente de Malaquias e da lei. Os dízimos e ofertas eram usados para que os levitas tivessem suas necessidades supridas, uma vez que não tinham terra para plantar, colher, criar animais ou executar outras tarefas que lhes rendessem lucros. E vou além, olha o que diz a Lei a respeito desse assunto:

Ao final de cada três anos, tragam todos os dízimos da colheita do terceiro ano e armazene-os em sua própria cidade, para que os levitas, que não possuem propriedade nem herança, e os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem na sua cidade venham comer e saciar-se, e para que o Senhor, o seu Deus, o abençoe em todo o trabalho das suas mãos. (Dt 14:28-29)

Fica claro um segundo propósito que a Lei dá aos dízimos: Suprir (ou socorrer) as necessidades dos levitas, dos estrangeiros, dos órfãos e das viúvas. Ora meu irmão, a expressão “estrangeiros, órfãos e viúvas” nada mais é do que uma referencia a todos aqueles que passam necessidades, estando sob nosso alcance socorrê-los. Naquela época, estrangeiros também não poderiam ter posses na terra de Israel, então eles eram um grupo absolutamente necessitado, bem como órfãos, por motivos óbvios, e viúvas, mas hoje são todos aqueles da nossa congregação (no mínimo) que passam necessidades. 

Isso é facilmente observável em toda a bíblia. No novo testamento, por exemplo, todas as vezes que Paulo trata do assunto 'contribuições', é sempre no sentido de socorrer irmãos em necessidades, suprir as necessidades de missionários e coisas semelhantes a estas.

"e para que o Senhor, o seu Deus, o abençoe em todo o trabalho das suas mãos”. Esta conclusão se refere a uma ação circular. Eles deram os dízimos dos frutos de seu trabalho (do trabalho de suas mãos), ao fazer isso, Deus continuará abençoando, e eles continuarão reconhecendo a mão do Senhor, e dizimando, mantendo o ciclo de obrigações, bênçãos e adoração. 

Concluo dizendo o seguinte: O termo dízimo, conforme usado no Antigo testamento, herança da lei, não há mais sentido na nova aliança, ou seja, não é mais mandamento.

Porém o dízimo continua existindo (pois já existia antes da Lei), e é natural que todo aquele que crê, confia e adora o Senhor, dê dízimos e dê ofertas. Como eu falei antes, dízimo é obra, e uma boa obra, pois tem um maravilhoso objetivo (adorar a Deus e socorrer irmãos em necessidade), e fomos criados para as boas obras (Ef 2:10).

Dízimos e ofertas em hipótese nenhuma são (muito menos devem ser) usados como uma forma de troca com Deus, onde eu dizimo para receber bênçãos. Não! Eu dízimo porque já fui abençoado, e através dele eu reconheço isso! É um princípio totalmente inverso do que muitos têm ensinado em nossos dias!

*(Além de uma forma de escambo espiritual, as contribuições dadas nas igrejas contemporâneas, em geral, são utilizadas para fins de manutenção e construção de templos, bem como para coisas que não possuem a menor relevância para o Reino de Deus. Não entrarei na questão se é correto ou não utilizar dízimos para construir templos, mas com certeza esse nunca foi um propósito majoritário do dízimo bíblico).

Em outras palavras, eu não preciso dizimar PARA SER abençoado, eu dizimo porque SOU abençoado!

Encerro apresentando outro problema: Quem usa os dízimos para os propósitos que a bíblia dá a eles? Que congregação usa este dinheiro para socorrer os irmãos em necessidade?

Felizmente há sim congregações que entendem e vivem isso, mas está longe de ser a maioria...

Então é isso, o texto ficou maior do que eu gostaria, mas o assunto é realmente muito amplo e há muito mais a ser dito e, principalmente, a ser vivido. Espero ter ajudado meu irmão.

Deus abençoe.

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*Este trecho não se encontra na resposta original.

Fonte da imagem: http://guiame.com.br/