14 julho, 2015

Por uma Igreja Institucional subversiva


Por Ruy Cavalcante

Instituições são mecanismos sociais que controlam e organizam as relações entre os mais diversos grupos sociais, ou seja, estruturam e controlam a sociedade. O estudo específico destes mecanismos é relativamente novo dentro da sociologia, porém as instituições existem desde quando seres humanos passaram a conviver em comunidade, embora não com estruturas formais como as encontradas na sociedade moderna, a exemplo de instituições políticas, educacionais, de saúde e etc.

Elas são estruturas sociais relativamente permanentes e marcadas por padrões de comportamentos delimitados por normas e valores específicos, sendo marcadas por finalidades próprias, e possuindo composição unificada. Resumidamente isso significa que as instituições refletem em suas estruturas os valores, princípios e padrões da sociedade onde estão inseridas, mesmo tendo sido dito que elas organizam a sociedade. Em outras palavras, as instituições refletem a sociedade.

A partir de agora refletirei este assunto sobre o ponto de vista pessoal de um cristão brasileiro.

Se as instituições refletem a sociedade, e se a sociedade é formada por pessoas pecadoras, decaídas da graça de Deus, nada mais natural que elas manifestem estes desvios. No Brasil isto é muito evidente. Corrupção, autoritarismo, impiedade, discriminação e todo tipo de maldade estão presentes em nossas instituições, simplesmente mantendo e organizando o padrão corrupto da sociedade. As instituições possuem, portanto, um papel fundamental dentro da sociedade, sendo uma das grandes responsáveis por manter a roda girando, a roda da corrupção e da maldade. 

Não estou com isso ignorando que existam coisas boas na sociedade brasileira, apenas quero, por hora, enfatizar as ruins.

E a instituição igreja, como fica nesta roda?

Bem, sabemos que Jesus não fundou nenhuma instituição, tampouco uma instituição religiosa. Entretanto, as instituições são frutos de necessidades humanas, portanto é praticamente impossível estar separado delas. Dessa forma, a igreja cristã também passou por um processo inevitável de institucionalização no decorrer da história.

O problema da igreja institucional cristã, e quero me referir especificamente às igrejas evangélicas, nicho institucional do qual eu faço parte, não está no fato de ela se organizar desta maneira, mas sim quando, ao se institucionalizar, ela também passa a refletir o que a sociedade é. Isso sim é uma desgraça!

Mesmo sendo uma instituição, a igreja possui valores próprios a serem manifestados e estes não são, nem de longe, os mesmos valores das sociedades humanas. A igreja precisa refletir Cristo, e viver sempre de acordo com uma cosmovisão cristã, mesmo que isso seja contrário a tudo que os outros esperam dela.

Mas não é isso que temos visto no Brasil. Pelo contrário, vemos denominações cristãs inteiras estruturadas para o favorecimento de ideologias políticas, incentivando a busca por coisas perecíveis, enfatizando em seus púlpitos não a cruz, mas o dinheiro, gerando multidões de crentes avarentos, impiedosos, com os mesmos valores e princípios que se mostram estampados em nosso cotidiano tupiniquim. John Stott disse algo interessante sobre este assunto:

Urge que não somente vejamos, mas também sintamos, a grandeza dessa tragédia, pois, na medida em que uma igreja se conforme com o mundo, e as duas comunidades pareçam ser meramente duas versões da mesma coisa, essa igreja está contra­dizendo a sua verdadeira identidade. Nenhum comentário po­deria ser mais prejudicial para o cristão do que as palavras: "Mas você não é diferente das outras pessoas!" (STOTT, 1981, p.7.).

Não! A igreja não pode se conformar com o mundo!

Embora eu não concorde com aqueles que demonizam a igreja institucional, eu compreendo as acusações contra ela e o desencantamento que ela tem gerado em muitos cristãos e na própria sociedade. 

Por mais institucionalizada que seja, a igreja evangélica precisa ser um ponto de conflito nesta roda que faz a sociedade funcionar, de forma que, ao passar por ela, a rotação não siga mais em seu eixo natural, antes seja sacudida de maneira a mudar sua direção ou, pelo menos, diminuir seu ritmo.

Ora, se a roda vem trazendo e refletindo corrupção, ao passar pela igreja deve haver uma quebra deste padrão, de maneira que esta corrupção seja bloqueada. A corrupção não pode continuar seu curso ao passar pela igreja, da mesma maneira a mentira, a prostituição, a impiedade e tantos outros padrões de uma sociedade caída, não podem continuar ditando as regras quando esse ciclo encontra uma instituição cristã.

Na instituição igreja a pessoas devem aprender a não mais se corromperem nem manifestarem os valores seculares. Mais do que isso, a igreja deve ser um marco bem fundamentado dessa quebra de cosmovisão, ela mesmo refletindo continuamente outros valores, os valores de Cristo. Mesmo sendo uma instituição humana, a igreja deve revelar um padrão diferente, de pessoas regidas por princípios regenerados, sob pena de não poder se declarar uma organização cristã genuína. 

Sim, no mundo moderno a igreja é uma instituição (falo da igreja visível), mas ela precisa ser uma instituição subversiva!

Se isso não está acontecendo, que comece por mim e por você. Lute comigo, sejamos indivíduos perturbadores do status quo, se esforce comigo para que nossas comunidades cristãs subvertam nossa sociedade. Chega de uma igreja brasileira moldada ao mundo, vamos colocar um defeito nessa roda!



Referências:

LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Sociologia Geral. 7ª edição. São Paulo: Atlas, 2010.

STOTT, John. Contracultura Cristã, A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo: ABU, 1981.





0 comentários:

Postar um comentário

Somente comentários ofensivos serão moderados. Discordar de mim não é pecado, então discorde à vontade.