26 agosto, 2015

A igreja é importante, a família é mais.


Por Ruy Cavalcante

Um problema que não é recente, mas que nos últimos anos, com o advento do neopentecostalismo, em especial a sua vertente Gdozista, tem se solidificado, é a confusão que fazem quanto as nossas prioridades enquanto cristãos, e infelizmente nessa questão a família está no centro da batalha, levando saraivadas por todos os lados. 

Apesar de o discurso ser sempre em favor da mesma, na prática esta quase sempre é renegada a um segundo plano. São casos e mais casos de famílias desestruturadas, divórcios e perturbações no lar, ocasionados por um descompasso entre o ensino bíblico e as regras eclesiásticas. 

Eu mesmo conheço de perto alguns casos alarmantes, como a de uma família inteira praticamente destruída após a conversão da esposa, e não foi em consequência do Evangelho não ter sido abraçado pelos outros integrantes, mas pela pressão que os então líderes exerceram sobra a mulher, fazendo-a dedicar todo seu tempo e esforço aos serviços eclesiásticos, ausentando-se completamente do lar. As consequências? Marido adulterando, filhos viciados, abandono escolar, dentre outros. Uma família que caminhava em relativa harmonia se desestruturando justamente quando, supostamente, Deus havia penetrado no lar. Isso é alarmante.

Outro grande amigo meu, durante uma viagem a trabalho, me relatou como seu casamento estava ruindo. Durante a conversa, ao aconselha-lo a que dedicasse mais tempo às necessidades de sua esposa, a ouvi-la, a dar-lhe carinho, ele me revelou que haviam se passado mais de 3 meses desde a ultima vez que saíram juntos, somente os dois. Na ocasião foram a uma lanchonete, comeram um sanduiche e meia hora depois retornaram, porque havia mais uma reunião para participarem na igreja. Ao questioná-lo quanto ao excesso de reuniões, ele afirmou que elas ocorriam todos os dias, por motivos diferentes, e que não poderia se ausentar, pois se não priorizasse Deus, como Ele lhe ajudaria?

Esse é um discurso comum em muitas igrejas, a de quê priorizando as atividades da congregação, você estaria priorizando Deus e, tendo Deus a primazia absoluta na vida do ser humano, a família poderia ficar para depois. Mas a congregação não é Deus!

Essa confusão precisa cessar, a igreja precisa ser agente de Deus para restaurar famílias, não para destruí-las! 

Mas, se alguém não cuida dos seus, e especialmente dos da sua família, tem negado a fé, e é pior que um incrédulo”. (I Tm 5-8)

Eu acredito piamente que esta deturpação não seja fruto de má fé destas igrejas, mas independentemente da intenção, atente-se a isso: se tua igreja o exige de forma tão intensa que você não possui mais tempo sequer para sua família, e ainda te recriminam quando você tenta dedicar tempo a ela, cuidado, ela já não está mais agindo como igreja e você não está agindo como cristão.

Cuide de sua família, dedique tempo e amor a ela, não seja pior do que os incrédulos. A igreja é importante, a família é mais.

Quando damos preferência a família estamos, sem dúvida nenhuma, dando preferência a Deus, priorizando sua vontade e sua herança deixada para nós. Se tivéssemos de grafar nossas prioridades, com certeza a família viria antes da congregação. Até mesmo o presbítero deve primeiro cuidar de sua própria casa, só então se dedicar aos cuidados da congregação (I Tm 3:4-5).

Por favor, não entenda que eu tento com estas palavras desprestigiar a igreja local, longe de mim. Quem acompanha o Blog Intervalo Cristão, meu Twitter ou facebook, sabe que sou defensor da congregação, do congregar e servir a Deus em comunhão com outros irmãos, mas esta deve ser uma pratica de santidade e amor, que fortaleça a família no lugar de prejudica-la. 

Não podemos usar a desculpa de servir a Deus para negligenciar a família, isso não é serviço cristão, pois Deus com certeza se alegra com um lar unido e odeia quem o prejudica.

Se existisse maldição para a vida de um verdadeiro cristão, ela com certeza não seria para aquele que ao se dedicar às necessidades de sua família, se ausentou de algumas reuniões na igreja, mas para o que fez o caminho inverso, deixando seu lar entregue a própria sorte enquanto cuidava se afazeres menos importantes, como uma reunião de líderes ou um “encontro com Deus”. 

Você encontrará com Deus mais vezes quando estiver ao lado de sua família, dedicando a ela todo o amor que você seja capaz de doar.

Não dê ouvidos a quem te cobra o contrário, pois tal pessoa não está a serviço de Deus quando age desta maneira. E que o amor seja o combustível de nosso relacionamento primeiramente com Deus e, logo em seguida, bem coladinho mesmo, com a família. 

Paz a todos.



2 comentários:

  1. Boa Ruy. Você resume muito bem o que eu passei nos meus primeiros anos de igreja. Apesar do meu foco ser diferente, também senti muito pressão para estar o tempo todo na igreja.

    Minha conversão foi em 2006 (dia 9 de março para ser mais exato). Assim que sai da faculdade eu decidi dar um novo rumo para minha vida. Eu queria uma nova profissão e resolvi estudar mais, me preparar para um concurso bom e resolver de vez o lado financeiro. O conflito com a Igreja começou aí. Eu dedicava tempo de menos para Deus, o que alguns insinuavam.

    A Igreja tinha uma agenda dessa forma:
    Segunda-feira: célula
    Terça-feira: culto
    Quarta-feira: culto de novo
    Quinta-feira: reunião de líderes (como eu não era, não participava)
    Sexta: Mais Culto
    Sábado: Culto dos jovens
    Domingo: Escola bíblica (começando às 8 da manhã e sem hora pra acabar e tenho conhecimendo de dias que já acabaram depois das 11 horas) e O culto da vitória às 18:30 (que ia terminar 21:00).

    Como eu disse, eu pretendia estudar. Trabalhando de dia, qualquer tempo a noite para estudar era lucro. Logo, decidi só ir nos cultos de sexta, sábado e domingo (SEM ir na escola). Era um absurdo!

    Eu ouvia piadinhas sobre o porquê de não ir os outros dias da semana, afinal "você não faz nada mesmo". Cheguei a ir em uma célula, mas confesso que achava tempo perdido sem falar que no final do encontro todo mundo quer conversar e eu com a cabeça longe querendo chegar em casa.

    Isso foi se agravando e cheguei a desistir da igreja (a congregação em questão). Eu simplesmente não conseguia estudar pelo fato de me sentir mal por não estar na igreja. E ia na igreja me sentindo mal por não estudar. Passei muito tempo com isso na cabeça e foi algo difícil de superar. Sei de gente, que como você citou, deixa família, estudo, faculdade, emprego e muitas coisas de lado por causa da igreja e depois não entende o motivo de algumas áreas da vida estaram ruindo.

    Talvez muita gente não concorde comigo. Eu digo "Ok! Você tem o direito de pensar assim e estar errado." Mas até onde eu vi, aqueles que verdadeiramente cresceram na fé, e que são exemplo e referência dentro de qualquer denominação, foram os que souberam equilibrar vida pessoal, profissional e devocional.

    Um abraço e fica na paz

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    1. Excelente depoimento meu irmão, essa questão ainda precisa ser muito trabalhada em muitas igrejas, elas simplesmente não compreendem que o nosso principal ministério é a família. Grande Abraço.

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