22 abril, 2015

Opressão cristã, o mais pesado dos fardos



Por Ruy Cavalcante

Nos últimos dias vários irmãos e irmãs, de congregações e cidades diferentes, têm conversado comigo a respeito de um mesmo problema. A maioria deles pede ajuda e conselhos porque não estão mais suportando o ambiente de tensão nas igrejas onde congregam.

Esse problema não é exatamente uma novidade, mas chama atenção como tantas pessoas estão enfraquecidas justamente por isso, e pedindo ajuda.

Elas fazem várias alegações. Que são constantemente cobradas para que alcancem as “metas” estipuladas pelas suas respectivas igrejas, o que torna suas vidas um redemoinho de reuniões, encontros, eventos, congressos, dentre outros que, por vezes, prejudicam até mesmo a relação familiar dos mesmos, dada a ausência constante no lar.

Também se sentem oprimidas pelo bombardeio de ensinos e pregações a respeito de finanças, entrando em várias encruzilhadas do tipo “suprir as necessidades da casa ou da igreja?”. 

Mas o que é pior e comum a todos são as constantes ameaças que sofrem, especialmente por parte das lideranças. São ameaçados de maldição se não contribuírem com as quantias absurdas que pedem em todo tipo de reunião. São ameaçados de maldição caso questionem qualquer tipo de ordem ou ensino da liderança, por mais absurdo que sejam. São ameaçados de maldição se frequentarem outras congregações. A lista de ameaças não para, são constantes, por tudo, e em todo tempo.

Além das ameaças, qualquer tipo de “desobediência” por vezes é exposta diante de todos, durante os cultos. Tudo isso causa um clima de opressão que retira a paz, causa medo e abre feridas que se mantém geralmente escondidas, mas que não saram.

Aliada a falta de ensino bíblico consistente, o que mantém estes irmãos na mais plena ignorância, típico de governos autoritários, essa realidade ocasiona uma verdadeira prisão, um fardo quase insuportável de se carregar.

Aqueles que têm zelo pelas Sagradas Escrituras já sabem onde quero chegar. Vou deixar então que esta Palavra fale por mim:

No amor não há medo antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor”. (1Jo 4:18)

Sabe quando você está numa igreja, e tudo que te ensinam te causa mais medo do que esperança? Sabe quando você está numa igreja, e se você questionar qualquer coisa, logo é advertido quanto ao risco que está correndo de ser amaldiçoado? Sabe quando você está numa igreja e no lugar de se sentir livre para viver e para pensar, você se sente oprimido por tantas cobranças e por um fardo quase impossível de suportar? 

Pois é, essa igreja não ama, e se não ama, não está a serviço de Deus.

Quem ama perdoa, quem ama acolhe, quem ama jamais ameaça, quem ama jamais amaldiçoa, quem ama não mete medo. Quem ama, simplesmente ama.

Lembro-me do vídeo de um dito apóstolo brasileiro, que rolou nas redes sociais nas últimas semanas, onde o mesmo esbraveja contra aqueles que o criticam declarando que “Deus o mate em três dias” caso ele não seja profeta, mas se não matar então que sejam todos os seus questionadores amaldiçoados. Tudo isso com uma expressão clara de ódio.

Cito este vídeo apenas para ilustrar algo. Vejamos novamente o que a bíblia diz a respeito destas coisas:

Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros; não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor; alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração; acudi aos santos nas suas necessidades, exercei a hospitalidade; abençoai aos que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis”. (Rm 12:10-14)

Diferente do como o tal “apóstolo” se comportou, Deus nos ensina a não amaldiçoar, mas a abençoar aqueles que nos perseguem. Se lembrarmos que o contexto de perseguição relatado pelos apóstolos verdadeiros, bíblicos, é sempre de alguém que sofre perseguição por amor a Cristo e não por desvios doutrinários, a coisa fica ainda mais complicada.

Mas então, se até mesmo aqueles que me perseguem devem ser abençoados por mim, jamais amaldiçoados, se até mesmo meus inimigos devem receber minhas orações, meu bem, meu perdão (Lc 6:27-28), quanto mais os meus irmãos!

Percebem o absurdo que é uma congregação, uma liderança cristã, ou qualquer outro participante do corpo de Cristo manter o costume de ameaçar outros irmãos, seja qual for o motivo? Percebem que isso não é cristianismo? Percebem que isso não é o amor cristão?

Viver em uma comunidade cristã é estar entre pessoas que te amam, que te perdoam, que convivem com as tuas falhas sem te impor fardos pesados, mas que te ajudam a carregar os fardos da vida (Gl 6:2; Cl 3:13), sem acrescentar outros.

Que terrível é ser livre da escravidão do pecado para ser escravo numa congregação cristã! Que terrível é acreditar no fardo suave de Cristo sem jamais experimenta-lo! Que terrível é viver oprimido por aqueles que um dia te prometeram liberdade e paz!

Não é meu costume dizer isso, mas nesse caso não há outra solução: irmãos, fujam de igrejas onde no lugar de amor, há ameaça, no lugar de paz, há opressão, no lugar de serviço, há escravidão e no lugar de irmãos, há chefes. Fuja, saia de lá, antes que teu coração se endureça, antes que a desesperança se instale na tua alma. 

Tenha a certeza de que Deus quer te dar a verdadeira paz e o verdadeiro amor, e busque um lugar onde, apesar das inevitáveis imperfeições, os irmãos compreendam o verdadeiro sentido do Evangelho e da comunhão cristã. Saia, e viva, encontre a suavidade de Cristo e abrace-a para nunca mais largar.

Deus abençoe a todos.



15 abril, 2015

Série: Cristão radical – Maturidade



Por Ruy Cavalcante

Irmãos, não lhes pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a crianças em Cristo. Dei-lhes leite, e não alimento sólido, pois vocês não estavam em condições de recebê-lo. De fato, vocês ainda não estão em condições, porque ainda são carnais. Porque, visto que há inveja e divisão entre vocês, não estão sendo carnais e agindo como mundanos?” (1Co 3:1-3)

Infelizmente em nossos dias, os mesmos cristãos que se autodenominam radicais ou “loucos por Cristo” são também os mais imaturos. Poucas coisas deixam isso tão escancarado quanto canções e pregações proferidas por esta geração, que se desenvolvem a partir de afirmações como “Disseram que eu não era capaz” ou “Não reconheceram o meu valor”.

Percebem a bobagem contida em tais lamentações? Volto a elas ao final do artigo.

Umas das preocupações de Paulo com seus irmãos em Cristo é para que se tornassem cristãos maduros, fortes, preparados e capazes de suportar as adversidades que viriam. Aos coríntios ele realiza uma forte exortação, reclamando de não poder sequer falar-lhes coisas mais sérias e importantes, nem ser enfático como devem ser as palavras dirigidas a adultos maduros. Nesse texto ele cita uma das razões pela imaturidade deles: A carnalidade.

Por serem carnais eles ainda não estavam preparados para o alimento sólido. Talvez esse tipo de alimento causasse ainda mais divisão entre eles, possivelmente porque não compreenderiam a profundidade de suas palavras, seriam superficiais como crianças.

Aliás, superficialidade é um grande mal em nossos dias, mesmo entre os cristãos. Grande parte de nós possui um conhecimento superficial da palavra de Deus, tornando-nos incapazes de desenvolver firmeza e vigilância. A falta de preparo bíblico é crônica no meio evangélico. 

Mas vamos lá, é preciso responder uma pergunta inicial: O que é maturidade cristã?

Recorramos novamente às palavras de Paulo, desta vez aos Colossenses: 

Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo. Para isso eu me esforço, lutando conforme a sua força, que atua poderosamente em mim”. (Cl 1:28-29 – Grifo meu)

A palavra “perfeito” nesse texto é a tradução do adjetivo grego “teleios”. Literalmente significa “completo” ou “de desenvolvimento completo”. Em outras palavras, Paulo não fala de uma perfeição absoluta e literal, mas de um desenvolvimento completo, ou seja, de maturidade.

Ser um cristão maduro é ser alguém com um relacionamento maduro com Cristo, a ponto de podermos adorá-lo pelo que Ele de fato é, a ponto de confiarmos nEle, de o amar acima de todas as coisas e finalmente de lhe obedecer.

Esse tipo relacionamento só é possível quando O conhecemos, o que significa que sem o conhecimento da revelação a qual possuímos dEle mesmo, que é a Palavra, e sem oração, é impossível ser um cristão maduro. Faz-se necessário também um esforço pessoal (no estudo e oração) para que cheguemos a tal nível de maturidade, observe que Paulo enfatiza sua luta e esforço, no ensino e advertência, em favor desse desenvolvimento, sem esquecer que é a força e o poder de Deus que opera em nós para realizarmos tal luta.

Hoje em dia há muitos cristos sendo ensinados, mas somente o conhecimento do Cristo verdadeiro é capaz de nos capacitar à maturidade. Não existe o cristo da prosperidade, o cristo das portas abertas, o cristo dos sinais e maravilhas, o que existe é o Cristo Soberano, Filho de Deus, o qual lhe aprouve sofrer a morte e o sofrimento que era nosso, a fim de sermos libertos do pecado e justificados pelo seu sangue. Esse é o cristo que precisamos conhecer e a falta dele tem gerado milhões de cristãos “loucos por Cristo”, porém absolutamente imaturos!

Esse Cristo só pode ser encontrado nas Escrituras Sagradas. E essa maturidade conquistada num relacionamento profundo com ele nos torna a casa firmada na rocha (Mt 7:25).

Estar firmado na rocha significa muitas coisas. Significa, por exemplo, ser aquele homem ou aquela mulher mais que vencedora, que embora ciente de que possa passar por tribulações, perseguições, prisões, decepções, frustrações, traições e até mesmo pela morte, sabe que no fim será vencedor, pois Cristo é sua vitória, e assim persevera até em meio ao caos, mantendo-se em santidade.

Também significa ser aquele irmãos que perdoa a quem lhe ofende setenta vezes sete vezes, da forma como Cristo nos perdoou, ou seja, sem a necessidade de requisitos, pois ele perdoa porque Cristo também nos perdoou.

De fato, ser um cristão radical é ser um cristão maduro, maduro o suficiente para abandonar as velhas birras e perdoar, amar, servir. Um cristão radicalmente maduro jamais oraria pedindo que Deus exerça juízo contra um desafeto, pelo contrário, ele amará, perdoará, fará o bem e orará por ele (Lc 6:27-28).

E agora convenhamos, desfalecer porque, supostamente, alguém nos disse que “não vamos conseguir” ou que “não somos capazes”? Quanta imaturidade, quanta meninice! Só a preocupação com estas bobagens já denota o nosso irrisório desenvolvimento espiritual.

Muitos cristãos hoje têm absoluto pavor de simples críticas sobre suas condutas, se revoltam se forem interpelados e exortados, ou perdem a compostura com as menores ofensas. Sinceramente, estas pessoas são radicais sim, radicalmente imaturas e despreparadas para a obra de verdade, na vida real, fora dos portões da gospelândia. 

Fujam disso, busquem o Cristo bíblico, sejam cristãos prontos, desenvolvidos, firmados na rocha onde tempestade algum poderá nos abalar, para que o nome de Deus seja glorificado, mesmo através de nossas vidas imperfeitas.


Referência Bibliográfica

STOTT, John. O discípulo Radical. Viçosa, MG: Ultimato, 2011.