23 setembro, 2015

A morte do peregrino e o testemunho cristão



Por Ruy Cavalcante

Foi então que ele [Proteus] conheceu a maravilhosa doutrina dos cristãos, associando-se a seus sacerdotes e escribas na Palestina. (...) E o consideraram como protetor e o tiveram como legislador, logo abaixo do outro [legislador], aquele que eles ainda adoram, o homem que foi crucificado na Palestina por dar origem a este culto.(...) Os pobres infelizes estão totalmente convencidos, que eles serão imortais e terão a vida eterna, desta forma eles desprezam a morte e voluntariamente se dão ao aprisionamento; a maior parte deles. Além disso, seu primeiro legislador os convenceu de que eram todos irmãos, uma que vez que eles haviam transgredido, negando os deuses gregos, e adoram o sofista crucificado vivendo sob suas leis." (A morte do Peregrino, 11 e 13 - Luciano de Samosata, 125-180 DC)

Luciano de Samosata foi um satirista ateu do segundo século, ganhava a vida como sofista e orador errante, uma espécie de filósofo satírico.

Em sua obra intitulada "A morte do Peregrino" (outras traduções podem apresentar títulos como "A passagem do Peregrino" ou "O fim do Peregrino"), ele conta a biografia de Proteus, um personagem real, filósofo do início do segundo século, que em dado momento havia se convertido ao cristianismo, mas que na verdade, segundo Luciano, se aproveitava da boa vontade dos cristãos, tendo apostatado depois de algum tempo.

A história é interessante e possui muitas semelhanças com o que ocorre hoje em dia, vale a pena uma pesquisa para conhecê-la melhor, além de ser ela uma das provas importantes da existência do Jesus histórico. No trecho postado, Jesus é identificado como o "Outro Legislador" e o "Primeiro Legislador".

Mas eu gostaria de chamar a atenção para outro aspecto dessa biografia zombeteira. 

A obra é tanto uma biografia quanto uma crítica contra Proteus (o peregrino). Proteus era muito elogiado por outros filósofos de sua época, como Theagenes de Patras e Aulus Gellius (125-180 DC), e é a fim de refutar estes elogios que Luciano parece escrever esta obra (ambos são citados na mesma). Em vários momentos Luciano satiriza o comportamento dos cristãos, faz piada deles, mas suas zombarias são, na verdade, um atestado do verdadeiro cristianismo que eles viviam.

Ele afirma que eles criam numa vida eterna e por isso desprezavam a morte e a perseguição por conta de sua fé. Eles se reconheciam como irmãos e, por conta disso, serviam uns aos outros continuamente, se doando e servindo de suporte. Luciano caçoa destas atitudes.

No decorrer de sua obra ele ridiculariza a maneira como os cristãos tratavam Proteus durante toda sua vida cristã e especialmente durante sua prisão (ele fora preso durante perseguição religiosa, por sua fé ao cristianismo). Ele diz que:

"[Peregrino] recebia toda a forma de atenção, não esporádica mas assídua. Desde o amanhecer viúvas idosas e crianças órfãs podiam ser vistas esperando perto da prisão, enquanto seus oficiais dormiam junto a ele depois de subornar os guardas. Traziam-lhe refeições elaboradas e livros sagrados de onde liam passagens em voz alta. O notável Peregrino - pois ainda conservava esse nome - era chamado por ele de "o novo Sócrates". (A Morte do Peregrino, 12)".

Esta vida de entrega ao outro não era considerada valorosa pela sociedade greco-romana, e esse comportamento causava estranheza. 

Numa contextualização grosseira, Luciano era como alguns humoristas modernos que zombam da fé cristã, a exemplo do grupo "Porta dos fundos". Com duas semelhanças e duas diferenças abismais.

A semelhança é que ambos zombam daquilo que veem, ridicularizando o proceder dos cristãos. Os humoristas (ou filósofos) satíricos, ao observarem o costume de quem constituíram como alvo de seus escárnios, e perceberem a diferença entre seus comportamentos e o status quo da sua própria sociedade, buscam formas de parodia-los, numa espécie de crítica cômica (embora nos primeiros séculos isso tomasse um sentido não de comédia, mas filosófico).

Por outro lado, a diferença é que, enquanto Luciano via e zombava de coisas que, embora para ele fossem ridículas, eram para o cristianismo bíblico não apenas ordenanças de Jesus, mas características de uma verdadeira conversão, como o amor fraternal e o sentimento de serem peregrinos nesta vida. Já os atuais grupos humorísticos veem e zombam de procedimentos completamente alheios aos ensinos de Cristo. 

O pior dessa diferença é que a zombaria que fazem com a igreja hoje encontra sentido no nosso próprio comportamento, pois em boa parte das vezes, quando nos observam, não enxergam amor e sim delírios e comportamentos extravagantes.

Resumindo, os primeiros cristãos eram ridicularizados por amarem demais, e nós hoje somos ridicularizados por nos comportarmos como materialistas, egocêntricos e arrogantes.

Onde está o erro? Neles que, ao nos observarem, não conseguem enxergar quem de fato somos, ou em nós, que não mostramos quem de fato deveríamos ser?

Os humoristas de hoje nos satirizam por coisas que de fato praticamos, a exemplo de Luciano no segundo século, ou tudo não passam de invenções sem nenhum fundamento, apenas para fazer rir?

Permitir-me-ei encerrar este texto sem conclusão, pois gostaria que todos pensássemos a respeito de nosso comportamento, assim como eu já venho pensando há um bom tempo.

E que todos nós, cristãos, possamos ser perseguidos não por causa de nossos pecados, mas por causa de nossos acertos, por causa do nome de Jesus e por, apesar de vivermos em meio a lama, não sujarmos as nossas vestes.

Deus abençoe a todos.